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6 de setembro de 2008

Existirá vida para além do deficit ?



Minha cara amiga Severa, tenho estranhado a sua ausência, tanto assim que aceitei o seu convite de subir aos seu cantinho, para ouvir uma coisa que me deu saudade e que tenho pena de não ter partilhado com a minha cara amiga. "Desembrulhei" a sua vasta colecção Beethoven e deliciei-me com a sempre maravilhosa Sonata nº2 em dó sustenido menor op.27 a Sonata ao luar.

Deu-me para me lembrar de Rilke falecido em 1926, porque também mais uma vez seguindo os seus avisados conselhos é na arte que podemos encontrar lenitivo, para os dias cinzentos que vivemos.

Recordo-lhe este poema e que dizer dele, aparenta arrogância de sentir quase divino, mas ostenta a sua (e nossa) indiscutível pequenez, não acha

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

Por cá os nossos pequenos "deuses", que espero efémeros, continuam a sua ascenção ao poder, culminada com a "eleição" de Carmona para Presidente da Republica. Rica eleição esta quando aos opositores é proibida a actividade política, muito embora a operação de maquilhagem da polícia política especial de Lisboa e Porto, tenha dado lugar "apenas" a uma Polícia de Informações do Ministério do Interior.

Por mim sempre me assustaram as criações, dos super polícias, mesmo que sejam só rotulados de Informadores.

O Sínel de Cordes continua a levar nas lonas dum tal António de Oliveira Salazar, nas páginas do Novidades, que ataca ferozmente a política do Ministro das Finanças. Claro que parece ser oposição, mas quanto a mim e a outras pessoas mais dadas às questões da Economia, não deixam de considerar correctos os seus pontos de vista, naturalmente muito mais abalizados por ser um regente de Finanças e de Economia Política de Coimbra, do que as medidas preconizadas pelo general Sínel, que toma medidas da ... corda

Diz-lhe o Oliveira Salazar que foi um erro o Sínel ter "esmolado" um grande empréstimo internacional, sem ter garantido um prévio restabelecimento orçamental.

Provavelmente o Sínel de Corde está convencido que existe vida para além do deficit.

Casa Comum, 31 de Março de 1928

1 de setembro de 2008

Como tornar nossos dias menos escuros

Quero dizer-lhe meu caro amigo que não perca de vista um jovem chileno de apenas 23 anos e que dá pelo pseudónimo de Pablo Neruda.

Já tive oportunidade de ler esse seu livro de estreia, que chamou Crepusculário e que lhe deixo na secretária da sua biblioteca, para que passe, uma leitura atenta, como é seu hábito


Sei que ele também já publicou em 1924 mais vinte poemas de amor e uma canção desesperada, onde destaco um deles, para mim de rara beleza onde diz

Quero apenas cinco coisas..

Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono

A terceira é o grave inverno

Em quarto lugar o verão

A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser... sem que me olhes.

Abro mão da primavera para que
continues me olhando.


Sei que o meu amigo, tal como eu, anda apreensivo, com os rumos da vida política portuguesa, cada vez mais longe dos ideais republicanos, aproximando-se das ditaduras fascistas europeias, como estamos a assistir acontecer aqui ao lado nos "nuestros hermano" e em Itália.

Faça como Neruda mas passe a desejar 6 coisas, inclua a Liberdade, sem a qual essa outras 5 sabem a nada.


O Sinel de Cordes, nas Finanças, soube à pouco ,recusou as soluções apresentadas para a remodelação do sistema fiscal, apresentadas pela comissão que foi criada e presidida por um tal Oliveira Salazar.


O Golpe dos Fifis em Agosto, também não deu em nada. Tenho como certo que um golpe, qualquer golpe militar, só terá êxito se envolver um causa nacional e popular.

Mas meu caro não era um golpe deste tipo que nós ansiamos, já que desta vez este golpe dos Fifis, não é mais do que questão interna dentro da própria ditadura.

Contestação a Sínel de Cordes a sua substituição por outra flor do mesmo jardim, não é objectivo, poderá ser para Morais Sarmento, mas não para os republicanos liberais.

Curioso é o nome que a imaginação popular já baptizou por Fifis, Filomeno mais Fidelino de Figueiredo, mas na prática não são mais do que divergências envolvendo o
Integralismo Lusitano e as suas figuras mais proeminentes.

Há muito tempo que não falamos de música, soube que o nosso Rachmaninov, está nos Estados Unidos, provavelmente descontente com o rumo dos acontecimentos políticos na sua pátria Russa.

Deixo-lhe para recordar o 1º andamento do seu Piano Concerto nº 2.

Querendo ouvir o resto o meu amigo já sabe, é só subir e ao meu cantinho.

Rachmaninov e Neruda são as minhas propostas de hoje, para um dia menos escuro, não é afinal para isso que serve a arte ?

Casa Comum, 31 de Agosto de 1727

21 de agosto de 2008

A Liga de Paris precisa de asas para voar


Enquanto os sinais de reforço dos poderes ditatoriais continuam a acentuar-se em Portugal e no resto da Europa, acrescente-se, se torna evidente a clivagem entre as forças pró-ditatoriais e os resistentes republicanos.

A luta continua aberta, embora desigual, começando o ataque à imprensa livre afecta ás forças republicanas, como o ataque às instalações do jornal a Batalha, o jornal propriedade da União Operária Nacional de tendência anarquista, na sequência aliás da ofensiva contra o sindicalismo de esquerda, já que dias antes também a Confederação Geral do Trabalho havia sido dissolvida.

Em contra-partida o governo de Vicente de Freitas diz querer transformar o 1º de Maio numa Festa do Trabalho a ser "comemorada em serenidade, paz e harmonia social". É este o conceito das forças da ditadura, tentar governamentalizar o movimento sindical autónomo, por forma a que pela utilização de frases queridas aos ouvidos de toda a gente, colocar um orgão criado para defesa dos interesses dos trabalhadores ao seu serviço.

A Liga de Defesa da República, foi criada em Paris em torno de Afonso Costa, constituida por nomes como Álvaro de Castro, José Domingues dos Santos, Jaime Cortesão e António Sérgio, disseram-me que se propõe lançar dali as bases da luta contra a ditadura instalada no poder

Naturalmente que tenho algumas dúvidas, que essa luta dirigida do exterior possa ter uma acção preponderante, razão provável para que tenham considerado importante aceitar uma ligação à CGT por terem ligações com os comunistas e visto a República dever encaminhar-se para a esquerda, apoiando-se nas classes operárias, segundo a visão expressa por Afonso Costa,

Os sonhos de Afonso Costa e da Liga de Paris precisam de ganhar asas para poder voar. Voar como Charles Lindbergh, um jovem de 25 anos, que ontem conseguiu o feito brilhante e ousado de fazer a ligação a Paris por avião por sobre o Atlântico apenas em 33 horas e 31 minutos , tripulando o The Spirit of Saint Louis.

Casa Comum,22 de Maio de 1927

6 de agosto de 2008

Na década da autocracia europeia

Os indícios de autoritarismo que se estão a desenhar no nosso País desde o passado ano de 1926, são preocupação, como já disse mas sobretudo porque estão perfeitamente enquadrados, com acontecimentos que ocorrem no mesmo sentido em vários pontos da Europa.

Em Itália o regime fascista abole o cargo de elegível de presidente da Câmara,substituindo-o pelo de corregedor nomeado pelo governo civil. Alguns atentados contra Mussolini só agravaram o aperto reaccionário com a aprovação das leis fascistissime, com o desaparecimento de todos os partidos da oposição e a criação duma polícia especial a OVRA, para reprimir os anti-fascistas, culminando a sua acção com a prisão de António Gramsci,


lider do Partido Comunista Italiano.

O regime fascista "reestrutura" as relações entre o capital e o trabalho, criando o ministério das associações, ensaiando o corporativismo, acabando com a greve e o lock-out, estatificando e controlando a "luta de classes".


Em Espanha, Primo de Rivera celebra um tratado de amizade com a Italia, estabelecendo relações de amizade entre as duas ditaduras, ao mesmo tempo que a Alemanha é admitida na Sociedade das Nações, recebendo um lugar permanente no Conselho.

A URSS assina um tratado de amizade e neutralidade com a Alemanha, enquanto a luta interna pelo poder se vira em absoluto para o lado de Estaline, secretário-geral do PCUS, qu acaba por controlar firmemente todas as alas do Partido.

Está cada vez mais débil e oposição movida por Trotsky e Zinoviev, que se clamavam contra a crescente burocratização e contar o apego estalinista a uma nova máxima a seu ver anti-revolucionária, do "socialismo num só país".


Há efectivamente por todo o lado um forte movimento de contestação às liberdades políticas acentuando-se a tendência, para o autoritarismo estatal, sinceramente espero que não venha a acontecer em Portugal, muito embora os acontecimento deste último ano de 1926, não me dêem grandes esperanças,

O movimento militar e civil desencadeado em Fevereiro deste ano contra a ditadura militar, foi completamente desbaratado quer no Porto onde começou quer em Lisboa.O saldo foi violento, mais de 600 prisões, centenas de mortos e milhares de feridos.

Não admira que as felicitações ao governo da ditadura tenham partido das entidades patronais e dos países acreditados em Portugal por iniciativa do núncio apostólico.

Todos os funcionários públicos envolvidos nos movimentos reviralhistas foram demitidos, destacando-se algumas figuras proeminentes como Jaime Cortesão e Raul Proença, fundadores da Seara Nova e que eram directores da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Em 10 de Março soube que foi publicado em Coimbra uma nova revista a que os seus criadores chamaram a Presença. A avaliar pelos nomes dos seus fundadores José Régio,João Gaspar Simões,Branquinho da Fonseca e Edmundo de Bettencourt auguro que façam um bom trabalho, embora tema pelo seu futuro.

Casa Comum, 20 de Março de 1927

31 de julho de 2008

O morte de Monet


A arte é intemporal, refiro a verdadeira a que nos aquece por dentro, não a passageira a fútil que não passa duma moda qualquer.

Foi a morte de Monet a 5 de Dezembro que me trouxe a ideia do "conforto" que a sua pintura me induz, particularmente nestes tempos pintados por cores tão negras.

Sou um apaixonado pelos impressionistas, cuja pintura ao mesmo tempo bela e delicada nos temas, é igualmente fugaz, deixando-nos um rasto de imprecisão de menos rigor tranquilizante.

Monet não quis ser um académico, a sua escola acabou por ser o experimentalismo com Auguste Renoir e outros ensaiando a técnica de pintar o efeito da luz com rápidas pinceladas,e que mais tarde seria conhecido como impressionismo.

Tantas dificuldades passou para impor a sua obra, que praticamente só começa a ser apreciada exactamente com a série os Nenúfares, reconhecimento tardio diga-se, mas que, apesar de tudo não deixou de acontecer ainda em vida dele.

Acabou assim o ano de 1926, sombrio com a nuvem negra do governo de ditadura militar, que a rebelião de Chaves de 11 e Setembro sob o comando do capitão Alfredo António Chaves, não conseguiu por cobro.

A ocupação da sede da Confederação geral dos Trabalhadores, meses depois do assalto ao jornal A Batalha , falando-se intensamente na criação duma polícia política, que me fazem temer pelo fim dos ideais republicanos.

Acabou o ano com a preocupação da resolução do encargo nacional para com a Inglaterra, traduzido na enorme dívida contraída por Afonso Costa, para fazer face à ridícula intervenção militar na guerra 1914-18. Deveria ter sido paga em 2 anos, terminado o conflito, mas anda por lá agora Sínel de Cordes a tentar renegociar esse encargo, conseguirá ?

26 de julho de 2008

Gomes da Costa no exílio



Minha cara amiga

Estou a escrever-lhe dos Açores, mais propriamente de Angra do Heroísmo, para onde, as vicissitudes da política me enviaram.


Soube da sua ida para Lisboa, por pessoa amiga que me deu a sua morada.


Muitas vezes me acusaram de "cabeça tonta", porque diziam concordava sempre com a última pessoa com quem falava, mas desde que o Sínel de Cordes, me convidou para com ele e outros militares encabeçar um movimento que se propunha restaurar a ordem e a paz em Portugal, que encarei essa missão como sempre deve fazer um militar, com seriedade e obstinação.


Ao ocupar a pasta do Ministério e interinamente a de Chefe do Estado, pareceu, que se depositava em mim a confiança necessária para levar a tarefa a bom porto, mas o mesmo Sínel de Cordes e o Carmona, menos dum mês depois forçaram num golpe, demitindo-me com a alegação de incapacidade para tratar dos assuntos do Estado, o que francamente me parece excessivo, atendendo ao tempo que dispus.

Falta de coerência programática e impulsivo, foi a alegação

A proposta que mantivesse a chefia do Estado, pareceu-me uma afronta à minha dignidade, que me levou a não aceitar.


Ao Oscar Carmona cabe agora a tarefa de chefiar novo governo, o seu conservadorismo vai fazê-lo por certo reunir-se de personalidades que o acompanharão nesse seu intento.


Lembro-me da conversa que em 4 de Junho tive com um grupo de jovens promissores, na Amadora, a quem chamava jocosamente a Tuna de Coimbra e que me impressionaram pelas suas ideias bem determinadas sobre o País.

Recordo que um deles um tal António Salazar, não entendeu as garantias que eu lhe dera como suficientemente sólidas e decidira voltar para Coimbra, ainda que já nomeado pelo Cabeçadas para a pasta das Finanças


Ouvi dizer que um deles está agora com o Carmona no novo governo, os outros virão mais tarde tenho a certeza.

Pois minha amiga aqui estou na Terceira, segundo o Óscar me disse há que dar tempo para acalmar as hostes.

Ele não se esqueceu como fui fui recebido em Lisboa e do desfile da Vitória na Avenida da República a frente de 15.000 homens.


Minha cara amiga, espero que fique bem e quando quiser enviar-me notícias deste nosso querido Portugal, pode enviar-mas para a morada que incluo, por ser casa de pessoa amiga e de confiança

Um abraço cordial de


Manuel Gomes da Costa
General

Angra do Heroísmo, 1 de Agosto de 1926

(carta absolutamente ficcionada, que não os factos nelas aludidos)

19 de julho de 2008

O simbolismo das palavras



Soube da morte de Camilo Pessanha,ocorrida há dias em Macau.

Disseram-me que vítima de excesso do amor ao ópio, o que não admira por ser tão frequente em terras do Oriente.

Felizmente que o hábito do consumo de droga, não está generalizado aqui em Portugal, muito embora se conheçam algumas pessoas mais abastadas a usarem a morfina e ópio.


Tantos anos em Macau, muito embora exercendo funções judiciais não o afastaram do consumo, nem da poesia, que aparecia duma forma dispersa, em jornais e revistas, pelo que só existe um único livro publicada em 1920 chamado Clépsidra.

Desfolhando a Clépsidra, parei neste poema chamado "Estatua" e nas palavras de Camilo, um mestre do simbolismo, deixo cair a minha apreensão, pelos sinais mais recentes da vida política portuguesa, desde o afastamento de Mendes Cabeçadas, um herói da Republica e das suas liberdades, substituído na frente do Ministério por Gomes da Costa, que acumula igualmente as funções de Presidente da Republica, desenha-se um perfil ditatorial para o governo de Portugal, que me não agrada

Em de 22 de Junho passado foi instituída a censura prévia à imprensa, não sendo permitida a saída de qualquer jornal, sem que 4 exemplares sejam presentes ao Comando-Geral da GNR.

E S T Á T U A

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado:

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Não creio que Camilo tenha colocado nas palavras deste seu poema as minhas apreensões, outras estátuas por certo lhe aparecerão,a marcar a fronteira da distância que nos separa dos outros.

Como nos amedronta aquilo que não entendemos.

Casa Comum, 30 de Junho de 1926





14 de julho de 2008

Golpe militar a 28 de Maio


O almoço deste dia 30 de Maio, estava pesado, não porque o bacalhau à Gomes de Sá, que eu mandara a cozinheira Efigénia, prepara para esse dia ao almoço, fosse de condimentação pesada, mas porque o semblante da Severa Mourisca não agurava nada de bom, atendendo às notícias que eu acabara de lhe ler no O Século de hoje.

Estava excelente o bacalhau, que esse cozinheiro do Restaurante Lisbonense (na foto), havia criado e que segundo sabia se encontrava, bastante doente. A velha Efigénia se bem que minhota, há anos que viera para Lisboa e tinha servido nas melhores casa, pelo que não tinha dificuldade em confeccionar os pratos que eu lhe encomendava.

Não fora o caso deste bacalhau, já que a confecção é simples pois a sua receita tradicional propõe que o bacalhau seja cortado em pequenas lascas marinadas no leite por mais de uma hora. Assado no forno, com azeite, alho, cebola, acompanhando azeitonas pretas, salsa e ovos cozidos.

As consequências do golpe militar que sob a chefia de Gomes da Costa, se tinha iniciado em Braga no dia 28, tinham precipitado acontecimentos vários, desde a demissão do governo de António Maria da Silva, ao mesmo tempo que a guarnição militar de Lisboa, sob o comando de Mendes Cabeçadas, adere ao movimento de Gomes da Costa, com o apoio da polícia de Ferreira do Amaral.

Que não houvesse preocupação dizia eu à minha amiga Severa, era um movimento militar que tinha por objectivo restaurar a ordem pública e não tardaria a que o Bernardino Machado, nomeasse outros governo da confiança dos militares e tudo continuaria como dantes, ela que bem sabia que de Gomes da Costa se dizia que tinha cabeça de galinha e era sempre da opinião da última pessoa com quem falava.

Ela abanava a cabeça taciturna, dizia-me que desta vez SABIA, TINHA A CERTEZA, que esta revolta tinha chegado para ficar e que iria durar décadas, que passaríamos tempos de ditadura e os ideais republicanos e democráticos, postos em causa.

Não deixou de me perguntar sibilinamente se a escolha do almoço não fora uma subtil homenagem minha á revolta do outro Gomes. Descansei-a quanto ás minhas intenções políticas, já que das suas, fiquei sem dúvidas.

Dizia-me ela que não duvidasse das suas capacidades divinatórias e que me lembrasse futuramente que não foi por acaso, que a revolta de Gomes da Costa, havia começado em Braga, já que nessa altura também ali decorria o Congresso Mariano, e essa dupla entre a força e a Virgem Maria, chegara para durar.

Lembrei-me que há pouco tempo, havia elogiado a capacidade cívica organizativa dos portugueses, onde as pessoas participavam activamente , embora também se notassem alguns sinais de cansaço, pelas dificuldades mas sobretudo pela incapacidade política de encontrarem ponto de concórdia mínimos que pudessem suprir as dificuldades que o País atravessa.

Constava-se que Bernardino Machado se havia demitido e entregue o poder nas mãos de Mendes Cabeçadas novo chefe do executivo, que ele próprio havia empossado.

Para desanuviar o ambiente no fim do almoço, propus-lhe que passássemos à biblioteca, para ouvir um pouco da Turandot que estreara no Scala em Abril passado

Casa Comum, 31 de Maio de 1926

9 de julho de 2008

Sopram ventos fascistas

(Grupo fundador da Seara Nova
Da esquerda para a direita, de pé: pároco do Coimbrão (não pertencente ao grupo), Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reis; sentados: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão. )



Há muitos anos que sou frequentador do Café do Gelo, no Rossio, o antigo botequim do Gonzaga, como foi chamada quando da sua fundação no século passado e que desde sempre mantêm as suas características do café das elites revolucionárias.

Ontem saí de lá já pela meia-noite, depois de numa tertúlia ter ouvido Aquilino Ribeiro, encantar-nos com a sua verve, contando-nos os projectos da "sua" Seara Nova, que havia ajudado a fundar em 1921, acorrendo à iniciativa de Raúl Proença e outros intelectuais do nosso tempo

O seu objectivo de serem poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes e contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social, alertava-os para o que consideravam ser o perigo, soprado da Itália de Mussolini, o fascismo.

Entusiasmado Aquilino falou-nos da semana que a Seara Nova estava a organizar para se iniciar na semana que vem a 27 de Março, na luta contra esse movimento fascista que em Portugal era conduzido pelo Centro do Nacionalismo Lusitano

Á saída encontro Rodrigues Loureiro, secretário-geral interino do Partido Comunista Português, após ao afastamento de Carlos Rates, que me informa do início do II Congresso do seu partido, no próximo dia 29 de Maio na Caixa Económica Operária.

Os seus objectivos eram vastos explicou-me, reforçar a organização do partido e promover a sua melhor integração na luta popular. O seu entusiasmo era evidente, por finalmente se ir realizar este Congresso, sucessivamente adiado por decisão da Internacional Comunista que, duvidava da solidez político-ideológica do Partido.

Regressei a casa pensativo, mas por outro lado feliz, porque para além de todas as confusões e tiroteios que diariamente ocorriam pela ruas, tinha em curto espaço de tempo oportunidade de ouvir representantes quer da intelectualidade, quer do movimento popular, que me fazia acreditar que o ideal republicano democrático está vivo.

Aluguei um dos quartos da Casa a uma senhora, que me pareceu de excelente condição e muito asseada, embora na curta conversa que tivemos me tenha parecido pessoa dedicada às letras, também fiquei com a ideia de ser interessada por assuntos doutra transcendência.

Uma coisa temos em comum o gosto pelo fado lisboeta, veio a propósito falar-me dum tal Alfredo Marceneiro de profissão, vencedor dum concurso organizado pelo poeta Botto no Sul-América ali à Rua da Palma.

Já nos prometemos uns serões fadistas cá na Casa com a Severa Mourisca.

Casa Comum, 20 de Março de 1926



5 de julho de 2008

Agitação nas ruas e demasiada calma cá em casa

Gostei de ler o livro de poesia desse jovem vila-condense recém formado em Filologia Românica, chamado Poemas de Deus e do Diabo, que dá pelo nome de José Régio.

Interessante para livro de estreia que reflecte a ansiedade dos tempos que se vivem as dificuldades económicas mas sobretudo a insegurança política.

Os atentados bombistas sucedem-se, com ataques que por vezes são semanais

É a cultura que adocica a alma e torna os momentos de insegurança mais suaves, mas o povo esse não tem alternativas sofre insegurança e tiroteio pelas ruas.

Pus a tocar na grafonola, este magnífico trecho do jovem compositor Villa Lobos, saído no ano passado que dá pelo nome de Choros nº5-Alma Brasileira, de que tenho gostado imenso desde que os começou a publicar em 1920 essa colectânea instrumental chamada Choros.

É assim que me consigo abstrair de toda a agitação política, ainda marcada pelos dois facto mais relevantes as sequelas do caso Alves dos Reis e o fim do monopólio dos tabacos.

No Parlamento ainda em Janeiro, Amâncio de Alpoim, criticou severamente a administração do Banco de Portugal de ser uma caverna de falsificadores e ladrões, mas as opiniões dividem-se aventando as hipóteses possíveis com grande veemência, para uns o caso Alves dos Reis está relacionado com um vasto plano soviético, ou para outros um ferrete de estrangeiros.

A Revolta de Almada, em Fevereiro passado, reflecte a confusão política. A revolta chefiada pelo construtor civil José Martins Júnior, reunindo outubristas, sidonistas, ex-democráticos, formigas pretas e radicais, tentou tomar de assalto o Quartel da Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas.

Nada que se pareça contudo, com a revolta militar de 18 de Abril do ano passado, mas parece-me que no meio militar existe uma simpatia crescente por soluções ditatoriais, tipo Primo de Rivera em Espanha ou o exemplo fascista italiano .

O cansaço de sofrer também "empurra" o povo para o apoio a soluções desse tipo, a meu ver contra-natura.

Ouvi dizer que amanhã Afonso Costa, vai presidir à Assembleia Geral da Sociedade das Nações, o que é sempre uma honra para o País, mas o Afonso Costa desde que se exilou em 1918, só ocupa lugares na cena internacional, nunca mais quis ocupar cargo na política nacional, embora muitas vezes tenha sido convidado.

Há políticos assim, muito portuguesismo mas quando chega a hora do prestígio pessoal e do dinheirinho ganho lá por fora não querem outra coisa

Estou ainda a aguardar a chegada da nova governanta beirã, que se chama Maria de Jesus de quem espero, saiba administrar este casarão que embora actualmente sem hóspedes, espero venha a ter em breve alguns inquilinos.

Já pus anúncio no O Século e no Diário de Notícias, com o seguinte teor

Aluga-se Quarto, na Casa Comum, a pessoa interessada, em compartilhar este espaço e com disponibilidade para os serões à conversa, sobre qualquer assunto interessante do nosso tempo,
Esmerado tratamento de roupas, e sistema de refeições caseiras a combinar.

Casa Comum, 7 de Março de 1926

2 de julho de 2008

Tenho quartos para alugar

Que estranho ter acordado neste 1 de Janeiro de 1926 e ter o casarão vazio. Habituei-me ao bulício desta casa e agora custa-me percorre-la vazia. Não sinto o cheiro do arroz de pato, que uma simpática senhora de Alcobaça, que por aqui passava, por ser amiga da D.Hilda, uma governanta que aqui existiu em tempos e que por amizade insistia em cozinha-lo por o saber, tão do gosto da nossa velha Hilda, filha de família outrora abastada.

Vou colar nos vidros das janelas, o triângulo indicativo, de que se trata de quarto para alugar. Hoje, que decidi manter a casa aberta, por mais algum tempo. Não vou conseguir mais do que 2 mil réis pelo aluguer, a vida está difícil, com grandes dificuldades económicas porque os preços dos bens alimentares não param de subir e os salários estão cada vez mais baixos. Desde o fim da Guerra Mundial tem sido sempre assim.

Alves dos Reis foi preso no fim do ano passado, por causa daquela trapalhada, das notas falsas e da confusão que se gerou no Banco de Portugal, com toda a gente a crer trocar as notas falsas.

Como eu percebo afinal o presidente
Teixeira Gomes que ao partir para o exílio, desabafou , que se libertou da gaiola dourada de Belém e que os políticos eram intoleráveis. Achei interessante esta analogia com a liberdade dos passarinhos, que nenhum político até hoje se lembrara de estabelecer, se calhar uma dia virá que algum se lembrará de o citar.

Claro que ao novo presidente Bernardino Machado seguiu-se um novo governo com o António Maria da Silva a presidir, vamos lá a ver o que é que isto vai dar, mas o povo já não acredita em nenhum, sobretudo nos que já entram derrotados.

De lá de fora ouvem-se notícias bem mais animadoras. Li no jornal O Século, que na Inglaterra surgiram, leis de subsídio de viuvez, orfandade e velhice e leis sobre habitação social e subsídio de desemprego.Não me parece que cheguem cá tão depressa.

Por cá tomara termos emprego e mantê-lo, para poder mitigar a fome e comprar uma alpercatas e umas gangas que a mais o povo não aspira.

Não, mais do que vinte e cinco tostões vou pedir pelo quarto, só queria é que aparecesse alguém com emprego estável, no Estado, na Banco ou empregado do Grandella porque são lugares com futuro, para que se não ande sempre a mudar.
Além disso gostaria que aparecesse alguém com gosto pela poesia o pela ópera, para que se pudessem fazer aqui uns serões agradáveis com um pouco de cultura.

Se houver interesse, talvez aceite mandar vir uma criada de servir, já que me falaram duma pequena ali da zona saloia da Malveira, que se ajeita na cozinha e com quartos todos alugados, me meteria em aprontar serviços de governanta, cargo para o qual também já me falaram duma tal Maria, uma beirã que dizem muito alinhada e asseada, vamos ver.

Se o meu aparelho de rádio, não estiver dessincronizado e não tiver ar na canalização, vou ouvir o CT1 AA, que começou a trabalhar com muito êxito do ano passado, graças aos esforços do sr. Abílio Nunes dos Santos

Casa Comum, 1 de Janeiro de 1926

30 de junho de 2008

Até quando quiseres Minucha

Vagueio por esta casa hoje quase abandonada, desde o momento em que a minha amiga Minucha, agarrou nas malas me entregou a chave e disse até já. Curiosamente tinha feito um post, que falava exactamente nos ciclos da vida das pessoas que se encerram, foi assim com o meu amigo Henrique, é agora com a Minucha.

Foi magnífico o curto espaço de tempo de com ela partilhar a Casa. Vínhamos aqui, fazíamos uma limpezas, tinha levado um restaura grande, por ter as paredes esburacadas, de algumas quezílias entre residentes, no tempo da gestão da D.Hilda.

Mas a Minucha fechou um ciclo, ela disse que voltará um dia e é mulher para cumprir.
Fique com o meu abraço e a minha ternura.

Olho me no velho espelho do hall de entrada e pergunto-me " E agora Luís ? que fazer ?", acompanhado de fazedores esquecidos, que não encontraram gozo em ser inquilinos, ou por outra em pagar a renda, pelo menos de vez em quando, que me resta fazer senão fechar a porta também e deitar a chave ao rio ?

Só hesito porque embora pareça ridículo, em quem tenta "tocar" 20 blogues ao mesmo tempo, acabar com este, custa-me dar-lhe o tiro de misericórdia, quase tanto como ás vezes custa matar uma formiga.

Havia gente que eu gostava de convidar para entrar, mas me inibo de o fazer, para não estar a incomodar e porque também é suposto que os meses de Verão, sejam de menor actividade .

Por enquanto fica assim , pensarei melhor no que fazer da Casa, talvez seja cedo para ficar devoluta.

28 de junho de 2008

Ciclos

Recebi do meu amigo Henrique, (penso que se recordam de lhes ter falado dele e dos nossos almoços), uma longa carta que não digo seja de despedida, porque os amigos, não se despedem, mas de encerramento dum ciclo da sua vida.

Quando chegamos a uma certa idade, apercebemos que a nossa vida é feita de ciclos, que se abrem e se encerram e que correspondem também eles em alternância, entre épocas globalmente felizes e outras menos boas. Eu digo, eu sinto que são 7 anos, mas além desse tema não vir agora a propósito, nem sequer sei se o Henrique, sabe isso é demasiado jovem.

Dizia-me ele na sua carta

"Julgo Luís que tu serás o único dos meus amigos, capaz de compreender a decisão que tomei, para a minha vida, na sequência daquele caso do meu envolvimento com Mafalda.

Decidi que não ia encetar nenhuma ligação com ela e tomei a decisão de abandonar o País e recomeçar a minha vida bem longe, tão longe quanto a Austrália possa ser distante para que eu me esqueça que existi no meu País, já que as pessoas que lá deixo, jamais deixarão de viver em mim, dentro de mim no meu coração.

Porquê podem perguntar-me, se afinal tinha conquistado a Mafalda a mulher da minha vida, porquê abandonar isso ?

A verdade é que não me pude conquistar a mim para essa causa. Tenho a consciência que a amarei sempre profundamente, mas também sei que nunca poderia ser feliz, sabendo que para a ter, tinha traído o meu melhor amigo, a sua confiança e a sua amizade.

Não o amor não pode justificar tudo, seria fácil encolher os ombros e dizer, "que querem apaixonei-me," mas não é verdade o amor só por si não justifica nada mais, do que um simples acto egoísta como outro qualquer.

Á Luisa, a minha mulher, não disse nada escrever-lhe-ei quando lá longe me refizer dos remorsos, que a sua perplexidade pelo acontecido lhe deixou. Porém não misturo as coisas, lamento ter deixado uma mulher que também amei um dia, mas há algo de contraditório em mim, o não deixar de me sentir, paradoxalmente, honesto com ela, por não ter protelado, uma relação que já não existia.

Não levo como recordação o amor da Mafalda para comigo, também ela não pode compreender que não se pode ser feliz, vivendo contra si próprio.

Um abraço meu amigo até breve, peço-te que não deixes que me chamem cobarde

Henrique

Não meu amigo, jamais deixarei que te chamem o que não és, mas sim alguém que tem a capacidade de amar toda a gente menos a ti.

Mas procura, procura sempre sabe-se lá se o que procuras, está logo atrás da porta do novo ciclo.

Florbela Espanca - Eunice Muñoz

24 de junho de 2008

ARROZ DE PATO





Pato mudo



Eu prefiro os patos mudos, mas façam com o pato que mais lhes aprouver.
Peçam para partir o pato em oito bocados.


Num tacho que que tenha tamanho suficiente para fazer o pato e mais tarde o arroz, cá por casa tem de ser grande porque nunca faço com menos de três patos mudos, os maiores, os que têm menos gordura e com a carne mais escura.
Ponham os pedaços de pato a fritar sem nada no tacho, com a pele virada para baixo
Quando virem que os primeiros pedaços já largaram toda a gordura, voltem-nos e deixem fritar, do outro lado e ponham-nos num sítio perto do lume para não arrefecerem muito e vão continuando a fritar os restantes pedaços.


Quando estiverem todos fritos, retirem todos os pedaços e façam na gordura que restou um refogado apurado com duas ou três cebolas bem picadas (as cebolas dependem da quantidade de pato)
Quando o refogado estiver bem apurado, mas não queimado, juntem todos os pedaços de pato no tacho e deixem-nos aquecer.
Depois com um bom cognac ou uma boa aguardente velha portuguesa, reguem os bocados e deitem-lhes fogo.
Deixem arder bem, com uma colher de pau, abram espaços para poder queimar bem.
Vai-se deitando água aos poucos, para estufar o pato e não água em demasia para o cozer.
O pato vai minguando e vai-se acrescentando sempre água aos poucos, para mais tarde se poder vir a fazer o arroz.


Quando o pato está pronto, retira-se do tacho e ainda morno desfia-se. Morno é mais fácil de se lhe tirar a pele.
Normalmente faço esta parte de véspera, para no dia seguinte ser mais fácil retirar o excesso de gordura.
Não a deitem fora, porque a gordura do pato faz magníficas carnes assadas, ou mesmo melhora muito um bom bife, desde que se acrescente à gordura inicial um pouco da de pato.
Faz mal ao colestrol, O.K., mas também não se come todos os dias.
Não se esqueçam do sal e de alguma pimenta moída na ocasião.


Meço o arroz e a água e para ele ficar bem seco, como gosto, pondo o dobro menos uma da medida de arroz.
Já não faço refogado, deixo só o arroz cozer na água. Há quem goste de pôr chouriço a cozinhar ao mesmo tempo que o pato, eu nunca ponho, acho que corta o sabor do marreco.
Quando o arroz está pronto faz-se o que é habitual.
Num tabuleiro de barro, ou num pirex, fazem cama de arroz, espalham bem o pato por cima e cobrem com arroz.
Batam um ovo e pincelem por cima do arroz e enfeitem com rodelas de chouriço.
Levem ao forno até estar dourado e bem quente.


José Quitério, gosta mais de no arroz de pato, pôr o marreco por cima do arroz, desta vez sem ser desfiado, indo assim ao forno.
Eu acho que fica muito seco e José Quitério nunca comeu o meu arroz de pato, se não dava a mão à palmatória.
Acompanhem com uma boa salada.


Era assim que se fazia em casa da minha avó e fica divino, com o arroz bem escurinho, de ter sido estufado o pato, em vez de lhe porem molho de soja para o escurecer.

20 de junho de 2008

Nós só queremos ser felizes

Tenho para mim que a verdadeira ambição, talvez a única de todos nós, é muito simplesmente SER FELIZ. Por vezes pode parecer que não, aventarem-se outras hipóteses, mas pensando bem todas as se resumem a esse desejo.

Porque me lembrei hoje de algo tão evidente ? A resposta tem que ver com a notícia do dia de ontem, a eliminação da selecção nacional de futebol às mãos da poderosa e fria Alemanha. Não quero falar aqui em futebol, não interessa escrever mais, acerca dessa matéria já que além de ser notícia em todos os jornais é tema na boca de toda a gente.

Hoje que a desilusão e a tristeza está evidenciada na cara da maioria dos portugueses, não falta quem venha criticar esse estado de alma, com o argumento que há coisas mais importantes na vida que o futebol. Reconheço que sim, muitas outras coisas são mais importantes que o futebol. Contudo peço a algumas dessas sumidades criticas, que por força, provavelmente de terem muitas formas de serem felizes, não menosprezem, nem adulterem o direito que muita gente têm de ter um único momento de felicidade, nos dias em que a selecção nacional de futebol ganha um jogo.

Pessoalmente, mais do que saborear as vitórias portuguesas, fico feliz, quando vejo a alegria estampada no rosto de pessoas nesses dias de vitória, que me deixam adivinhar a dificuldade do seu viver nos outros todos  do ano.

Para muitos é alienação, para mim também será alienação, não discordo, mas não terão também eles, cada vez em maior número na sociedade portuguesa, direito ao seu dia de alienação, de alegria, e de num dia ou outro por ano, sentirem orgulho de ser português ?

Que mais acontece no seu dia a dia que realmente os faça vibrar ? Que poderá mais fazê-los gritar o orgulho de ser português na esperança do amanhã mais risonho ?.

A permanência do país nos últimos lugares europeus, nos rankings das coisas boas que realmente interessam ao dia a dia dos portugueses, apetece-me dizer Obrigado selecção de futebol, pelo menos convosco,  ficamos nos oito melhores da Europa.

Esta semana não houve almoço, nem da gerência, nem dos meus amigos, também alguns deles andam dispersos, incluindo o Silva, que anda lá pela Suíça, desde o início do campeonato. 

Hoje de manhã recebi um SMS dele dizia, "ontem engatei uma alemã, fui dormir com ela, ganhei nos penalties. António"





17 de junho de 2008

A gerência atraca a bom porto(III)

Não gosto de pato, por isso a única maneira em que lhe pegava se estivesse morto e depenado era fazê-lo em arroz, porque o meu é diferente de todos.

Normalmente o que fazem é cozer o pato, eu estufo-o, o que faz uma diferença enorme em sabor e cor.

Um dia destes dou a receita.

Mas se estivesse vivo, punha-o lá, a ver se me cortava a relva que amanhã é dia de o fazer e não me apetece, porque são duas horas de trabalho puxado.

Mas também gosto de patos para ornamentar tanto em prata como em louça.

Por isso vês que é difícil responder-te concisamente.

Pois olha Minucha devo dizer-te que arroz de pato, é um dos meus pratos favoritos. Antes de comprar tudo feito, eu tinha péssimo hábito de ter que trabalhar e como acontece nas grandes cidades, ninguém vai almoçar a casa, ao contrário do que acontece em Portimão.

E num dos restaurantes onde ia , era conhecido pelo senhor do arroz de pato, porque o comia muitas vezes.

Entretanto confundiste-me com essa de teres que cortar a relva do jardim.

Pergunto-me admiradíssimo se essa não é exactamente uma das tarefas associadas ao "pato-marido".

Pergunto se não for para terem um jardineiro, um electricista, o homem do lixo, o passeador do cão, o canalizador e etc. Para que é que as mulheres se casam ?

Olha lindo, se comes arroz de pato em restaurantes e se gostas, passavas-te com o meu.
Digo-te mais

Os meus ex cunhados ainda hoje se lembram do meu arroz de pato, e já lá vão mais de trinta anos desde a última vez que o comeram.

Lá em casa quem corta a relva sou eu, ele faz outras coisas mais pesadas.

Viemos para o campo com a condição imposta por mim, já estou arrependida um milhão de vezes, não de ter vindo, mas de ter imposto esta condição, para sermos nós a "curtir" o trabalho.

A curtição passou logo, podes crer, desde o dia, dias, em que plantei sozinha 1200m2 de relva, nem te conto.

Estava eu, a brincar a brincar, a tentar levar-te para o campo das relações de poder eternas, essa coisa que afinal é o equilibrio de toda a nossa vida, as relações marido/mulher, mas hoje não está para as minhas provocações.

Claro que é tudo maravilhoso quando se repartem as tarefas o que nem sempre acontece, sobretudo nas gerações mais antigas.

Realmente esse lado poético, do curtir o campo, deve ter tido o seu momento maravilhoso.

Faz-me lembrar aquela do alentejano que disse ao lisboeta que as batatas fazem mal aos rins e perante a dúvida do citadino, ele perguntou-lhe "então amigo já experimentou plantá-las ? "

Olha lá por é que não mudam de vida, agora já mais velhotes ?

Mas eu respondo à tua provocação. Já me puseste de bom humor.

Mas respondo em nome pessoal, não vou generalizar.

Não preciso de um homem para nada disso, porque sei fazer e faço todas essas coisas. Sempre fui polivalente.

Preciso do "meu" ao pé de mim, pela simples razão de que gosto dele, muito, mais do que quando comecei a viver com ele.

Preciso dele pala cumplicidade, preciso dele, pelas gargalhadas que damos juntos, pelas discussões que temos que me dão um prazer enorme, mesmo zangados, preciso dele porque não quero viver sem ele, apesar de não ter medo nenhum da solidão, mas não quereria viver sem o amor dele.

Não mudamos de vida, porque só de pensar que teríamos de viver para um andar nos dava uma coisa má, porque adoramos estar aqui, porque fizemos esta opção só há nove anos.

D' aqui só saio para um lar, ou para a cova, mas para mais lado nenhum.

Bem eu quando disse mudar de vida, não era de local, era só de estilo de vida, digamos, aliviar essas tarefas mais pesadas, pagando a alguém que as fizesse.
Realmente deve ser horrível a pessoa habituar-se a viver com espaço e depois ter que voltar a um andar.
Se não te importares quando chegar ao meu poiso, vou mudar a música do blogue,lembrei-me duma coisa e tu vais lembrar-te também, quando ouvires, que eu dedico a ti e ao teu, como tu dizes.
Bom parece que estamos no fim do almoço.
Mais um vez te digo que foi um encanto estar contigo, vais pagar a continha do almoço, que eu cá sou pelas igualdades. Para a próxima trazemos alguém o que é que achas ?
Agora vais ter que me dar boleia e “TANGA NIZI” como costuma dizer um amigo meu

Sabes dá trabalho, mas no fundo qualquer um de nós gosta de o fazer, porque o gozo é ainda o sermos capaz de fazer. É como fazer ginástica que detesto, mas depois sinto-me lindamente,è igual.

E se convidássemos o Funes? achas que ele aceitaria?

Pago o almocinho com imenso gosto e dou-te boleia também com prazer, vamos conversar em off.

Mas lá essa outra expressão é a primeira vez que a ouço, mas gosto do som.

Fico à espera da surpresa.


É com dizem os tipos que falam inglês da doca querendo dizer TAKE HER EASY (Vá com calma).
Convidar o Funes era de facto uma magnifica ideia.

13 de junho de 2008

A gerência atraca a bom porto(II)

- Ainda não decidimos, Luís, se vamos comer as ameijoas ao natural ou se preferes de outra maneira qualquer.mas esta lagosta vivinha que nos estão a mostrar vamos comê-la cozida, não achas?

Seria uma pena tirar-lhe o sabor, porque a lagosta aqui de Cascais ou Guincho é a melhor do mundo.


Estás de acordo? ou preferes de outra maneira. Prova o patê que é uma maravilha. e este Pata Negra costuma ser dos melhores

-Olha Minucha,ameijoas como eu gosto delas é ao natural, não gosto que compliquem as coisas com molho que só devem servir para disfarçar menor qualidade. Concordo contigo, mas eu gosto é dos lombinhos e vou cometer uma heresia, pelo menos deves considerar assim, mas eu adoro salada russa com bocados de lagosta e muita mayonese.

Sou louco por mayonese como tudo, mesmo o que não gosto desde, que embrulhado nela. Nunca experimentei embrulhar a comida que mais detesto favas, mas se calhar também marcham
.

Patê e o presunto também marcham e vem a propósito já que é tempo de Santo António. Foste ao arraial, ou não entras nessa já que suponho não seres lisboeta ?

- Óptimo, também as prefiro ao natural com limão.
E claro, a lagosta com maionese, mas aqui depois desossam, enfim, uma maneira de dizer a cabeça e as patas então verás o bom que é comer os lombos da cabeça sem lhes pôr as mãos.

Claro que sou Lisboeta e que adoro Lisboa!
Não vou ao arraial, que já nada tem a ver com aqueles onde ia, além de que o preço da sardinha é hoje proibitivo.

Nan! fico-me aqui pela lagosta. Adoro sardinhas nem imaginas as saudades que tenho das de Portimão debaixo da ponte, mas pagá-las ao preço da lagosta isso não. Ainda por cima não me fico com uma dúzia.

Mas queria-te perguntar a propósito de um comentário que fizeste se sentes muito o racismo por terras Algarvias, se sentes no sentido de saberes se por aí há tanto como pelas grandes cidades cá de cima.

Deves saber que esses locais para comer sardinha em Portimão, que se chamavam "debaixo da ponte", já desapareceram, transferiram-nos para o outro lado da ponte, onde por acaso não gosto de ir, perdeu-se o encanto do rústico e da confusão.

Continuo é a ir mesmo de baixo da ponte, esse restaurantes não desapareceram é actualmente onde vou comer sardinhas, chama-se Forte e feio e já lá levei os amigos, que agora estão de férias.

Cada vez mais para mim a questão do racismo, é um tema geracional e cultural, com excepção de alguns grupelhos de idiotas, existe infelizmente mais arreigado na nossa geração, são esse que continuo a ouvir clamar contra os pretos e contra a corja dos ucranianos (vais tudo para o mesmo saco desde que sejam de leste), talvez um pouco menos contra os brasileiros.

Francamente é tema com que embirro e me custa ouvir, quando encaramos o problema como portugueses que como sabemos, tanto se alimentaram noutros países, como reflexo da política salazarenta da fome, mas que não me admira volte a acontecer de forma massiva, por força do liberalismo económico, que a pouco e pouco vem ganhando terreno, acolitado pelo socialismo socrático.

A vida nas grandes cidades é mais difícil que nas pequenas, portanto também o racismo se exacerba.

- Mas sabes que vivo perto de uma aldeia, a Várzea de Sinta, e aqui nenhum emigrante se fixa, pois os locais não os recebem bem.

Os brasileiros então ainda pior.

As pessoas esquecem-se é que os emigrantes sejam de onde forem vêm fazer o trabalho que os portugueses não querem fazer, pelo menos cá. Vão para fora porque ganham mais lá mas tem havido casos, mesmo em Espanha, mas não só, os nossos acabam por ser escravizados em muito piores condições se por cá ficassem.

Eu não consigo perceber alguns dos nossos emigrantes.

Bom também não me queria referir a aldeias muito pequenas, mas não percebo a razão da recusa que dizes haver aos estrangeiros, nos pequenos aglomerados nem sequer se pode dizer que seja porque vão roubar os empregos que a existirem são ocupados por familiares.

Esse caso em Espanha talvez tenha sido uma excepção, não havia um português envolvido, penso que encarregado ou simplesmente engajador de mão de obra ?

Bem mas falando de assuntos sérios, de sobremesas aqui como é ? Adoro leite creme,(o nosso amigo José Torres se calhar chama-lhe creme queimado) mas lembro o do minha mãe, ela tinha um ferro para queimar lá o ponto de rebuçado, ou como é que vocês os especialistas chamam a isso.

Nos restaurante já deixei de pedir, vem sempre aquela coisa gelada tipo massa de sapateiro, que me apetece atirar à cabeça do empregado.


O último leite creme que comi num restaurante e cheguei a ir lá mais vezes por causa disso, foi num restaurante que existe no Mercado de Santa Clara, onde é a Feira da Ladra, conheces.

Eu sou o tipo de gajo guloso a quem os amigos, mais as mulheres deles, gostam de presentear miminhos doces, há tempos uma amiga fez-me um leite creme que palavra de honra, parecia mesmo o da minha mãe, ela disse por curiosidade que tinha levado 24 ovos, dá para perceber porque razão os restaurantes o assassinam .

Mas houve um caso mais grave na Holanda.

Sabes que eu de doces...nem olho a lista. Mas sei que aqui há uma mousse gelada de avelã que é uma especialidade.

Também faço um leite creme que leva imensas gemas, porque o leite creme só leva gemas, não leva ovos, mas não chaga às duas dúzias, a não ser que seja para um batalhão de pessoas. (risos)

Não, não é o ponto de rebuçado que é queimado. Queima-se o açúcar para fazer rebuçado, para não me alongar muito em explicações em que ficavas a ver navios.

Era uma travessa jeitosa, mas como habitualmente eu como metade, porque o resto da rapaziada, ou não gosta de doces, ou optam pela elegância (também é o teu caso, por certo) de modo que cá o Luisinho afinfa-lhe em cheio.

Mas meu Deus compotas com bocadinhos de fruta inteiros lá dentro é milagre dos céus. Eu fui castigado, casei com uma magra, que detesta doces e não sabe fazer nem um bolo daqueles simples.

Uma vez experimentou, saiu tal merda que teve que deitar fora o prato onde pôs o bolo , estava grudado nele.

Enfim eu digo-lhe que se soubesse fazer doces era perfeita, e ninguém é .

Agora vou fazer-te uma pergunta difícil, se apanhasses um pato a jeito, como é que tratavas dele para o comer ? olha que o José Torres é como Deus, está lá em cima a ver-te.

(continua no dia 14 num blogue perto de si)

10 de junho de 2008

A gerência atraca a bom Porto(I)



Levei o Luís ao Porto de Santa Maria, no Guincho.
Peixe e marisco do melhor.
Gostei da sua reacção à minha condução: ainda "travou" aí uma vez ou duas, mas de resto não lhe ouvi nem um ui.
Para homem que é conduzido por uma mulher, passou no exame, nem parece da minha geração.
Só gostava de saber se lhe custou muito ou não o conter-se. Só "abri" na estrada do Guincho, que até lá, a marginal já não dá grande espaço de manobra.

- Umas ameijoas para abrir, está bem? Gostas de lagosta? aqui vale a pena comer, ainda por cima nem sujamos as mãos.
Gostas de Alvarinho? Palácio da Brejoeira é óptimo e liga sempre bem com marisco.
Mas como sei que agora está na moda o tinto com tudo, se o preferires......


Realmente "travei", mas isso é normal, também te deve acontecer, quando vais de "pendura no lugar do morto", Tenho que confessar, que tu para mulher não guias nada mal, é verdade. Percebi perfeitamente a razão porque dizes que a marginal agora não dá espaço de manobra, tem polícia a mais não é ?

Olha que eu também guio depressa, quando venho a Lisboa ver o Sporting, nunca demoro mais de 2 horas, ás vezes menos e para isso é preciso não baixar dos 160. Tenho é a mania que topo os carros à paisana, reduzo para tentar ver os "sinais exteriores de civilidade" dos condutores, se usam chapéu à "chaparro", se levam mulheres ou crianças e sobretudo se não são Fiat Punto, ou equivalente.

Não sou grande apreciador de marisco, mas falas exactamente nas poucas coisa do género que como, ameijoas e lagosta, junta a "caca" da sapateira se for bem feita, carapaus com bigodes, grelhados e com molho de manteiga e acabou-se a minha lista de mariscada.

Por acaso é verdade eu sempre gostei mais de vinho tinto, tenho a particularidade quando vou a festas com amigos, manter-me de princípio a fim agarrado ao vinho, nada de bebidas diferentes, ou dos falsos digestivos.

Vamos lá no Brejoeira também gosto.

Ando há que tempos para te perguntar, o que te fez entrar nesta coisa na blogosfera ?

- E eu a pensar que querias falar de poderes.
Não sou programada, por isso a entrada na blogosfera nada tem de programação.

Apareceu uma vez no Expresso uma lista dos dez blogs com mais entradas editadas.
Entrei pela primeira vez na blogosfera a visitar os dez mais dessa lista.
Fixei-me em dois blogs e daí parti à descoberta de mais.

Dois meses depois abri o Claras em Castelo, para experimentar, sem saber o que iria fazer e fui mudando o registo conforme me apetecia experimentar,está bem diferente desde o início.

Mas neste momento estou viciada, apetece-me escrever, coisa que nunca tinha pensado em fazer.

Por acaso a mim os amigos diziam-me que essa coisa dos blogues, tinha "a minha cara", mas nunca esperaram que eu levasse tão a sério a missão ao ponto de ter uma imensidão de blogues. Já lhes disse que é apenas por uma questão de arrumação temática mais nada, é o mesmo que ter só um e escrever todos os dias, mas por acaso até nem é.

Realmente é um bocado viciante até foi por saber isso que demorei a entrar.

Já que falas no Claras, foi o único caso, em que fui ler todos os post que fizeste desde o início, bom realmente não li intensamente, mas pelo menos passei os olhos por todos os posts, não me perguntes porque fiz isso porque não sei responder.

Falar de poder se pensarmos bem é o que todos nós fazemos todos os dias, em cada um, da imensidão de blogues que entram diariamente na blogosfera.Quando falamos num blogue contra o governo, estamos a falar numa relação de poder

São imensos os poderes porque a vida não é mais do que uma relação continua de troca de poderes, onde uns mandam e outros são subordinados, talvez a doçura de sermos avós, tenha que ver com o facto de já não sermos precisos, no exercício do poder para educar, que pensas disso ?

- Em relação a ser avó....costumo dizer que os filhos são o Amor da vida e que os netos são o são o sal da vida
Os netos não são só a ternura, são a permissividade, por isso se pode disfrutar a 100%.
Há quem diga que os educam. Eu recuso-me.
Cá em casa fazem tudo aquilo que não podem fazer em casa dos pais, o que lhes dá a eles e a mim a noção da beleza da transgressão.
Acho muito mais importante ensinar-lhes a transgressão, do que tentar educar.
É fundamental, na minha maneira de ver, saber-se transgredir e isso podes acreditar que os meus netos aprendem comigo.

A relação de poderes de que falas....não sei...a blogosfera a mim não me dá poder nenhum, é isso aliás que me dá tanto prazer.

No dia-a-dia, tento não o exercer em nenhuma circunstância, que acabam sempre por ocorrer, quanto mais não seja como "patroa" de uma empregada.

Com o "meu" o poder já não existe há muito, já existiu, mas de há uns anos para cá, como já nos conhecemos tão bem, as cedências fazem-se à primeira, sem pressões nem guerras. As discussões cá em casa são mais sobre política, porque temos maneiras de ver completamente diferentes.

Dos teus blogs nem falo. Se eu sou viciada, não sei o que te hei-de chamar.

(continua sexta-feira, num blogue perto de si)

7 de junho de 2008

O almoço cá da gerência (III)

Não sei se já reparaste que quase chegamos à conclusão que "antigamente", os patrões eram melhores do que são hoje. È uma conclusão "apetecível", porque realmente as condições de vida de hoje , são absolutamente inóspitas para a generalidade dos trabalhadores.

Acho que é uma tentação dizer isso, mas não corresponde à verdade, falamos de alguns casos isolados, de patrões com comportamento acima da média, porque as condições económicas e políticas lho permitiam o que não acontece hoje.

Lembro que existiam leis proteccionistas como a do condicionamento industrial que também lhes permitiam poder considerarem-se donos do mercado, pelo menos nalgumas circunstâncias por outro lado, o controle da actividade sindical, era tão intenso que permitia também que, as tabelas salariais mínimas, fossem tão baixas que facilitava o pagamento acima desse valores.

Claro que outra coisa, era construir bairros para os operários como fez o teu avô, que para além de ser homem com formação para isso, também sabia que a vida da empresa estava garantida, mesmo que houvesse chineses (e não havia), Também não havia mercado aberto e liberalismo a rodos e muito menos UE.

Concordas com o que eu digo ? Mas olha que ainda tenho pendente por aí, falar-te doutros poderes, queres ver que temos que ir almoçar amanhã outra vez

- A empresa familiar teve de lutar contra o proteccionismo dado a outras.
Por exemplo:

pediram alvará para mais tonelagem na produção, foi-lhes negado e tiveram de comprar uma empresa que estava em falência para conseguir o tal alvará que essa tinha, mas no essencial estou de acordo contigo.

Almoçar contigo é sempre um prazer.

Vamos dividir a conta.

-Pois é verdade isso do condicionalismo industrial era terrível, tinha a assinatura clara do Botas, era o controlo absoluto de toda a sociedade, protector nalgumas situações de monopólios.

Como se dizia na altura Portugal era pertença de 7 famílias e do Cerejeira.

Eu realmente sou doutro tempo, quando era impensável, que me fizesses essa pergunta da divisão da conta.

Era tão óbvio, que pagar contas em almoços com senhoras era tarefa masculina, condizente com o ditado "onde há galos não cantam galinhas". Os homens, sentiam-se mal quando as mulheres em público, puxavam de dinheiro para pagar.

Quantas vezes entre casais, para evitar o embaraço dessa situação a mulher passava o dinheiro por debaixo da mesa, para o homem não fazer figuras tristes.

Aquela série que dá na RTP 1 ao domingo, que agora não me lembro o nome, é muito interessante porque reflecte muito bem, como se vivia e se pensava naquele tempo e olha que já foca só a "primavera marcelista", os tempos mais duros do António da Calçada, já tinham passado.

Naturalmente que os tempos são outros, até achava ofensivo para ti, se não dividíssemos a conta. Só nos conhecemos hoje, mas já te "leio por dentro", há muito tempo.

Mas Luís o meu tempo é o mesmo que o teu tempo e nunca, mas nunca aceitei que me pagassem o almoço, ou jantar a não ser se me convidassem.

Um convite é diferente, de se combinar ir almoçar como foi este o caso.


Mas eu também posso convidar e nessa altura sou só eu que pago.


Conheces-me, sim, eu sei.


Dividimos ou tu pagas hoje e eu pago amanhã? Convido-te


-Olha que também está certo, mas amanhã és tu que escolhes o restaurante.

Está bem, então levo-te no meu jeep e faço-te uma surpresa.

Arriscas-te a ser conduzido por mim?

l
Levo-te para fora de Lisboa a um dos restaurantes onde mais gosto de estar.


Fiz e faço, lá muitos almoços com as amigas.


4 de junho de 2008

O almoço cá da gerência(II)

Bom também é verdade que existem alguns vinhos Alentejanos de qualidade, mas para mim e para a esmagadora maioria dos meus amigos, actualmente a preferência é clara, pelo Douro.

Estávamos a falar de poder e da minha afirmação complementar da tua, que o poder É sedutor e inebriante e que obviamente vicia.

Também acho que o comportamento do poderosos é inversamente proporcional, à origem e à educação, no fundo ao "berço" de cada um, se me permites que use esse termo.

Uma coisa nunca me esqueci, quando estive na guerra colonial (eu fui sempre um militar de cidade), alguns pretos (não uso expressões ofensivas tipo "de cor" ou "negros") me dizerem que eram, mais mal tratados, por alguns soldados do exército português, exactamente os oriundos do campesinato, do que pelos oficiais.

Como é obvio o ditado "não sirvas a quem serviu e não peças a quem já pediu" está certo, concordas ?

- Sempre gostei muito dos vinhos do Douro.
Claro que o Alentejo também têm muito bons vinhos, principalmente os da Fundação Eugénio de Almeida, os meus preferidos.Mas os vinhos Alentejanos estiveram na moda, o que os inflacionou.

Depois há pessoas que nada percebem de vinhos e que partem do princípio errado, que se é caro é bom. Não é só nos vinhos que isto acontece.

Uso muito esse ditado, Luís; mas no que se refere ao Poder, não estou 100% de acordo com ele, melhor dizendo, acho que esse ditado se refere mais ao poderzinho, por exemplo na arrogância e estupidez da maior parte da polícia, GNR, PSP.

Quando falo em Poder, nas empresas por exemplo, assisti a muitos abusos e das pessoas de quem menos se esperava.
O "paternalismo" dos empresários, que tanto foi criticado, nunca era abusador e foi substituído pelo Poder sem escrúpulos, por ser económico e financeiro.

-Ah é verdade já me esquecia da policia, PSP e GNR os teus ódios de estimação, tenho uma ideia dum post teu no Claras, que relata uma aventura com a GNR, que é simplesmente delicioso.

Eu sei que sou polémico quando digo isto, mas a verdade é que por natureza nós somos sempre contra o poder, sobretudo esse poderzinho das pessoas, que exercem essa autoridade mais próxima dos cidadãos.

Clamamos contra a insegurança dos nossos dias, refilamos contra a falta de esquadras e já agora de polícias dentro delas, mas quando ela actua junto de nós, volta-mo-nos contra eles, lamuriamos pelo perdão se estacionamos em cima do passeio, ou se excedemos o limite de velocidade, o polícia é um malandro, que nos persegue e não nos trata com o devido respeito.

Por outro lado, muitas das pessoas da nossa geração ainda veneram o poder, sobretudo o poder político. Consideram por exemplo, que quando no parlamento o Louçã , chama mentiroso ao Sócrates, isso é condenável porque o Sócrates é primeiro ministro e não se chama mentiroso ao primeiro-ministro, mesmo que o seja.

Que queres dizer com isso do poder "paternalista" e penso que te referes ao "antigamente" da velha senhora, nunca ser abusador ?

Para já acho a expressão "nunca" sempre excessiva e pouco rigorosa, mas qual é o sentido que dás à palavra "abusadora", não levavam empregaditas para a cama era ?

Não, estás enganado, até me dou muito bem com a polícia, mas tenho assistido a cenas com o "meu", que não têm sido agradáveis.

Normalmente os polícias tratam melhor as mulheres, e as polícias tratam melhor os homens.

Só não me safei da multa do telemóvel e foi por pouco!
Ainda estou à espera que digam se me tiram a carta ou não.

A mim não me incomoda nada os insultos que se chamam dentro do Parlamento. Estão entre iguais, e se querem que seja essa a linguagem, a mim é-me indiferente, embora ache que não dignifica nem quem chama, nem quem é chamado.

Em vez de mentiroso, pode-se dizer "o senhor está a faltar á verdade".

Se o Sócrates ou outro qualquer for estúpido, não se lhe pode chamar estúpido, ou então estás a defender a maneira do Jardim falar contra a oposição.

Ou bem que chamam todos, ou bem que não chama nenhum.

Claro que tens razão, 'nunca' é sempre exagero, mas tens de aprender que sou sempre exagerada na minha maneira de falar (gargalhada) outro defeito! mas vais ter de habituar.

Mais uma vez generalizei. Mas repara :

Os latifundiários alentejanos, não eram paternalistas e abusavam do poder, do pagar mal, da fome dos trabalhadores

Mas houve empresas, cujos patrões fizeram casas para os empregados, creches, e pagavam acima da média e eram considerados paternalistas e esses não abusavam dos trabalhadores, como massa de assalariados.

No entanto no que se refere a levar as empregadas para a cama, só se não pudessem (sorriso trocista), mas também aconteceu numa geração onde culturalmente, era aceitável fazê-lo e todas as acções se devem ver nos seus contextos culturais.

Mas a verdade é que não eram pressionadas, ou pelo menos não estavam em risco e tiravam, também, dividendos disso.

Cuidado, desta vez não estou a generalizar, estou a falar de casos pontuais que conheci bem e estou a falar da geração dos nossos avós, e não da dos nossos pais.

-Bom vamos lá a ver, reconheço que esse rótulo do paternalismo, existiu muito como te lembras num certo período do pos-25 de Abril, proveniente do reconhecido exagero na linguagem política que existiu na altura, mas é verdade que existiram pessoas que foram isso, para além da condição acessória de patrões, lembro o Nabeiro em Campo Maior e esse, se teve problemas depois do 25 de Abril, não foi com os trabalhadores mas com o governo e administração fiscal. Porque no que ele tinha ninguém se atreveu a tocar-lhe.

Reconhece que esses "paternalistas" que falas foram uma minoria.

A mesma minoria que hoje existirá e os tempos são outros. A maioria dos patrões está-se nas tintas para que se não possa viver com menos de 400 euros por mês. Pagam o que a lei manda e mais nada.

Espera lá que já continuo a responder-te, mas está na hora da sobremesa, imagino que te fiques pela fruta, já que sei não seres gulosa, mas olha que eu não perdoo uma mousse de chocolate que vi no escaparate, quando entrei.

Não sei se foram uma minoria, Luís.

O grande patronato, não abusou muito, nem tinha os lucros fabulosos que têm agora os empresários e os banqueiros.

Vou-te falar de 3 famílias: António Champallimaud, Jorge de Mello e os Espirito Santos.

Nunca pagaram mal. Fizeram as grandes indústrias e os grandes bancos, mas deram emprego a milhares, e não eram mal pagos.

Não queria falar da minha família, que era uma pequena empresa no 25 de Abril. Mas devo dizer-te que nunca houve uma greve na Crisal, Cristais de Alcobaça, nem mesmo depois dos sindicatos estabelecerem os ordenados para os vidreiros. Os seus ordenados eram superiores aos estabelecidos.

As casas dos operários, feitas pelo meu Avô, foram vendidas aos filhos destes, por dez tostões, e só por ter de haver um preço numa venda.

Parece-me que o abuso é muito maior nos tempos de hoje.
Agora é que só se pensa em dinheiro, em lucro e mais nada.

Não meu querido, nem fruta, fico-me pelo café

(continuará para a 3ª parte)

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