Fevereiro de 1952
400 padeiros assinam uma exposição, a ser entregue pela sua comissão ao delegado do Instituto Nacional do Trabalho, com reivindicações da classe. Os operários da Fábrica do Cobre entregam uma exposição com dezenas de assinaturas dos trabalhadores à direcção da empresa, exigindo aumento dos salários.
5 de Fevereiro de 1952
Elementos da Comissão Central de Movimento Nacional Democrático (Rui Luís Gomes, Virgínia Moura, José Morgado, Albertino Macedo) são presos, devido à campanha contra a reunião do Pacto Atlântico (em Lisboa) com a divulgação do documento Pacto de paz e não do Atlântico.
Fevereiro de 1952
Forças da Oposição, nomeadamente o PCP, desenvolvem uma campanha contra o Pacto do Atlântico e a realização da reunião em Portugal do seu Conselho de Ministros. São expulsos de Belas-Artes 15 estudantes por participação em acções anti-NATO.
Junho de 1952
Democratas portuenses enviam ao Governo Civil um abaixo-assinado de protesto, com 98 assinaturas, contra o encerramento da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.
A AFPP foi fundada oficialmente a 10 de novembro de 1935, tendo os seus estatutos homologados pelo Governo Civil de Lisboa em 8 de fevereiro de 1936.
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Surgiu num contexto de forte tensão internacional — pouco antes da Guerra Civil Espanhola e, depois, da Segunda Guerra Mundial — quando o tema da paz mobilizava consciências na Europa.
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Apesar de se definir como apolítica e não religiosa, muitas das suas associadas tinham convicções antifascistas e estavam ligadas a outros movimentos democráticos e feministas da época.
🎯 Missão, objectivos e actividades
A AFPP tinha como motivações, entre outras: paz mundial, solidariedade humana e a educação das mulheres — não apenas como mães e esposas, mas como cidadãs atentas.
Algumas das suas principais atividades:
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Realização de palestras, exposições, saraus culturais, projecção de filmes — visando espalhar ideias de paz e consciência cívica.
Organização de cursos de alfabetização, línguas estrangeiras, dactilografia, puericultura, enfermagem, entre outros — destinadas ao empoderamento e educação das mulheres.
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Apoio a vítimas da guerra e a refugiados/pessoas vulneráveis, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial — a AFPP tentou enviar donativos, ajudas e auxílios onde fosse possível.
Publicação de um boletim informativo — o Boletim da Associação Feminina Portuguesa para a Paz — para divulgação das suas ideias, atividades e para manter associadas e simpatizantes informadas.
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Tinha também um coro infantil, dirigido pela musicista e ativista Francine Benoît, o que demonstra um interesse pela cultura, educação e também pela formação das novas gerações.
👩🤝👩 Perfil das associadas e relevância social
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Entre as suas associadas contavam-se mulheres destacadas no ativismo, literatura, artes e na luta pelos direitos das mulheres — muitas ligadas igualmente a outras organizações democráticas ou feministas.
A AFPP representou, na prática, um espaço de resistência — não apenas pela paz, mas pela dignificação da condição feminina, pela educação, igualdade e cidadania. Em muitos casos, mulheres da AFPP também se envolveram em redes antifascistas ou democráticas.
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Isso tudo num contexto onde o regime que vigorava em Portugal — o Estado Novo — tentava controlar, moldar ou reprimir associações femininas independentes: organizações como a AFPP representavam, portanto, uma voz de dissidência civil.
⛔ Fecho e repressão
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Com o endurecimento da repressão política, especialmente na década de 1940 e início da de 1950, a AFPP foi alvo de vigilância pela polícia política.
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Em 1952, a associação foi proibida — foi a “última grande associação feminista” que o regime dissolveu nessa época.
Após o encerramento, muitas das suas integrantes sofreram consequências: perderam emprego ou viram retiradas as suas habilitações académicas.
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Apesar disso, algumas continuaram individualmente a lutar pelos ideais da AFPP ou integraram outros movimentos de oposição e feministas clandestinos.
🕊 Por que é importante recordar a AFPP
Para mim — e acredito que para a história social portuguesa — a AFPP representa:
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Um exemplo de como a paz, a educação e os direitos das mulheres foram entrelaçados no ativismo social, num tempo de ditadura.
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Um espaço de resistência civil, de luta por dignidade, igualdade e liberdade, mesmo sob regimes autoritários.
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Uma ponte entre feminismo, pacifismo, consciência cultural e responsabilidade social — demonstrando que “ser mulher” também significava poder intervir, organizar, educar, transformar.