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26 de março de 2008

Rótulos




Foto de Mike Ludlow


Dizem que sou louca, só para não dizerem pior, mas a mim que me importa!

Quero ir onde ninguém vai, quero sentir o que ninguém sente, quero aqui ficar, quero ali ir, quero poder me entregar, quero poder desejar, quero escolher.
Dizem que sou ninfomaníaca, porque não sabem o que quer dizer, só para não dizerem pior, que sei bem o que vai naquelas cabeças bem pensantes, mas a mim que me importa!
Quero estar nos braços deste, enquanto me apetecer, ir para os de outro, quando esse apelo sentir.

Quero lá saber o que dizem de mim, quero lá saber o que de mim pensam, por sempre porem rótulos, sem quererem sequer saber a razão da existência, quanto mais do que pensa esta louca, que de louca nada tem.

E é vê-las a cochichar, aos grupinhos, olhos que apontam, olhos que são flechas, fazendo de conta que são amigas, mas se puderem dão cabo de mim. Têm medo que lhes roube os maridos, as pobres coitadas que nem gosto têm.
Mas elas que tanto mal dizem, acabam por fazer pior, à socapa, corpos que se entregam noutros braços que não os dos maridos, sem coragem de o afirmar, para sentirem “poder”, com vontade de manterem o status e eu é que sou a louca, para não dizerem pior.

No meu corpo ondulante quero ser livre, não ter de justificar nem de inventar que com uma amiga estive, enquanto estava em braços que me apertavam com desejo e paixão.
Quero sentir as mãos que escolher, o meu corpo a percorrer, sem ter de pensar em horas, ou no jantar que ficou por fazer, ou de ter para a telepizza telefonar.

E rio para o ar e para o mundo, quero lá saber dos rótulos, e das parvoíces que de mim contam.
Só fico enquanto quiser e enquanto bem me sentir.
Ah! Poder partir ou ficar, poder ir ou vir, é a minha felicidade.

Que ninguém me venha dizer que sou louca, só para não dizerem pior, loucos são os que ficam querendo partir.

25 de março de 2008

Dão-nos um lirio e um canivete

"Dão-nos um lírio e um canivete", disse eu há dias aqui numa resposta, que fiz de passagem a um comentário de Xistosa, numa alusão ligeira, ao tempo da guerra colonial.

Lembrei a erosão que essa guerra injusta, como quase todas, provocou na nossa geração, (falava com Xistosa, um sessentão praticamente "equivalente") e com essa simples frase recordei-me de Natália Correia.

Recordo-me sempre dela, quando falo na guerra colonial, porque me lembro desse poema fundamental, que começava exactamente por essa frase e que se chamava, "Queixa das almas jovens censuradas".

A guerra colonial sob a visão rigorosa da Natália retratava neste poema, exactamente tudo o que nos davam nesse tempo, um mapa imaginário e tanta coisa feita de nada, até a honra de manequim, para dar corda à nossa ausência, dos nossos lares , das nossas família e assumamos, ainda meninos do colo das nossas mães.


Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

O tabaquinho do Movimento Nacional Feminino, beato e cheio de madrinhas de guerra e aerogramas de tristeza. Quantas vezes um "esquife feito de ferro com embutidos de diamante para o enterro mais adiante"para tantos que de lá vieram.

Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.

Naturalmente que Natália Correia não foi só isso. Era uma mulher de denúncia. liberta e eventualmente libertina, de quem recordo uma noite de vivência comungada, por Alfama em largo grupo, que incluía o Ary dos Santos, talvez uma das noites simultaneamente mais loucas da minha vida com poemas recitados às estrelas e onde mais pequenino me senti a comer sardinhas assadas sentado ao pé dos deuses..

Esta poema cantado por José Mário Branco autor da música, fica mais belo ainda, se possível, porque também em si mesmo representa, que pessoas tão opostas politicamente, podem ter a capacidade de se entender nas coisas verdadeiramente importantes.
(para ouvir desligar primeiro no fundo do blogue o tema genérico)



20 de março de 2008

Revisitar Albert Camus

Não tenho aqui à mão, muitos dos meus livros, ficaram por Lisboa, na minha casa-mãe, mas por onde, agora pouco paro, rumei a Sul, ficando-me por Portimão e a Lisboa, subo de passagem, às vezes ida e volta no mesmo dia.

Não quero esquecer-me de trazer alguns dos livros de Camus, que por lá tenho e que subitamente me apeteceu reler. Camus foi a minha inebriante descoberta juvenil, num tempo de mentes fechadas, era uma janela, um rasgo na mediocridade e se há dias falei de Gomes Ferreira, como um dos símbolos da minha formação, não poderia deixar de mencionar Camus, no mesmo plano.

Importa também tentar encontrar as razões porque me apetece tanto, retornar ás referências intelectuais da minha juventude, não é por certo por saudosismo, que sei não comportar, mas talvez porque algo na "paisagem portuguesa" de agora, me sugere cinzentísmo, nuvens negras que no meu subconsciente se avolumam.

Coloco a possibilidade, de argumentar legítima defesa, ou é impressão minha ? Embora tema que ninguém consiga convencer-me que se lê nos rostos, nas caras e nas palavras da nossa gente, promessas de esperança em dias melhores.

Há algo de muito medíocre e cinzento nos tempos em que vivemos.

Pode parecer paradoxal eu estar a sugerir-me Camus em acto de defesa pessoal. Ele não era exactamente o homem da mensagem da esperança na espécie humana.Pelo menos para quem o leia desprevenidamente a atitude existencialista não parte dessas premissas para a condição humana, contudo a mensagens final encaixava perfeitamente na ideia que só na solidariedade humana se pode encontrar a solução para o absurdo dos dias que se "vivem".

Preciso de reler o Homem revoltado.

14 de março de 2008

As Maias não se maquilham

Desde já uma nota importante, não quero que pensem que sou um tipo quadrado. Não quero que pensem que tenho alguma coisa contra o facto da maioria da mulheres se maquilharem.

Curiosamente, as mulheres da minha vida nunca se maquilharam, a minha mãe era uma senhora linda de olhos verdes e de pele muito branca. A minha mulher têm uns lindos olhos azuis e minha filha saindo a mim, tens os olhos castanhos.

Também não tenho ideia do meu pai alguma vez ter feito alguma alusão no sentido de proibir a minha mãe de usar bâton, rímel ou qualquer um dos habituais produtos usados para efeito decorativo facial, digo isto porque noutros tempos era habitual os homens proibirem.

Por mim, enquanto marido e pai, também nunca o fiz, nem nessa matéria nem noutras, sempre fui rigorosamente liberal, no que aos gostos de cada um diga respeito.

É apenas uma coincidência de 3 gerações, decididamente a maquilhagem não entra na minha família. Lembro-me, que igual nota poderia dar das minha 4 tias maternas, mas acrescentaria ainda mais, também o mesmo se pode acrescentar ao uso de brincos.

Também nunca usaram.


Decididamente "as Maias", nunca se maquilharam e nem por isso deixaram de ser lindas.

Assim de repente só o meu neto, decidiu e ainda bem para acabar com a norma, usar um pequeno brinco, que por acaso até lhe fica bem.

10 de março de 2008

João Sousa Monteiro


É um apaixonado pela Psicanálise e pela Psicologia e sobretudo pelo estudo desta aplicada às crianças e adolescentes na sua odisseia diária: o crescimento

"O desejo de conhecer trás sempre a recordação velada de uma ameaça, esconde sempre o eco de uma condenação. Comer da árvore do conhecimento conduz inevitavelmente à expulsão do paraíso, mas recuar perante o desejo de conhecer conduz inevitavelmente à morte"

João Sousa Monteiro fez um programa no “FM stéreo da Rádio Comercial entre 18 de Maio de 1977 e 29 de Dezembro de 1978” chamado o Homem no Tempo, transmitido duas vezes por semana com suporte áudio (voz de Hitler a discursar, ruídos de aviões, metralhas e explosões, etc).

João Sousa Monteiro, sempre foi incómodo e foi por isso silenciado.

Era inconformista, subversivo e radical. Usava um tom revolucionário pouco habitual porque era contra a formatação do conceito, vulgar e demagógico de “revolucionário”.

"... o sentido ultimo da arte, da filosofia da ciência, da psicanálise e de toda a cultura: ajudar a transformar os "pensamentos impensados " dos outros e de nós próprios, contribuir para que nos outros, e em nós, nasça uma vez, e outra, e outra ainda, o desejo de "criar o mundo", e a capacidade para reconstruirmos, vez após vez, a ilusão de o termos conseguido ...”

“…Um dos tabus sociais de maior importância estratégica para a sobrevivência e bom funcionamento de qualquer sociedade “civilisada” consiste na proibição de pensar.

Sem essa preciosa restrição, imposta sobre cada um de nós com especial vigilância desde o início da nossa existência, nenhuma forma arcaica ou civilizada de organização social poderia provavelmente subsistir

Entreter o “indígena” com toda a espécie de birimbaus civilizados, de comprar-lhe a sua tácita aquiescência de búfalo e vacamente cooperador; distraí-lo a todo o tempo distraí-lo sobretudo de si próprio - de modo que não lhe sobre energia suficiente para perceber, no fundo, o que se passa à sua volta; Meter-lhe sempre à frente dos olhos, um chocalho luminoso – qualquer um dos chocalhos luminosos que a civilização engenhosamente produz – de modo a que não fixe nunca demasiadamente o olhar no mijo moralista em que a Sociedade se apoia, na açorda ideológica que a sustenta; Comprar-lhe assim a sua docilidade postiça é talvez o mais comum e o mais rendoso dos negócios, em que todos, em que todos nós participamos activamente, de formas directas ou indirectas.”

In “Tire a Mãe da Boca” de João Sousa Monteiro.

Conheci João Sousa Monteiro, andaria eu pelos dez anos, era amigo de um dos meus irmãos.
Vivia muito perto de nós, e tinha uma biblioteca fantástica. Íamos os dois, o meu irmão e eu, muitas tardes e noites para casa do João só, simplesmente, para lermos tudo o que era proibido, nessa altura.

Esta é a homenagem que quero aqui fazer, a um amigo, que me ajudou a formar, que me ensinou a pensar, que ajudou a fazer de mim aquilo que sou hoje.

6 de março de 2008

A Grande Alma


Não me é possível, neste repositório das personalidade que nos marcaram, que eu a Maria Faia (e quem mais quiser colaborar) decidimos fazer, deixar de mencionar a figura de Mahandas Gandhi.

É um dos meus ídolos, de tal forma que digo, que personagens como a dele deveriam ser mostradas nas escolas, se isso acontecesse só poderia resultar na melhoria da formação humana dessas crianças.

Não seria necessário converter o ensino, numa divulgação do hinduísmo, não é disso que se trata, mas os seus valores, a sua preocupação constante com a busca da "Verdade"e a afirmação sempre constante que a firmeza, deve ser a força que move o Mundo, não a violência.

A solidariedade deveria dominar ideologicamente na sociedade, em detrimento do egoísmo e isso deveria ser ensinado nos bancos da escola, para que se pudesse no futuro vir a colher os frutos de uma sociedade melhor.

O exemplo da Grande Alma (Mahatma), não poderá nunca desaparecer, sob os escolhos do esquecimento, porque não desejamos que este Mundo venha a ser, ainda pior.

É preciso recupera-los divulgar que existiram pessoa como o Gandhi, como Nelson Mandela (ainda vivo), ou Luther King. Os valores que defendem continuam a precisar de ser defendidos, os problemas que Gandhi definiu como prioritários continuam latentes, nalguns caso minimizados mas relembro que no seu famoso programa de 5 pontos, simbolizados nos dedos da mão, pelo menos pela no que à

igualdade, pela amizade e pela igualdade para as mulheres

diz respeito,há ainda muito por fazer, se não quisermos claro, raciocinar que o Mundo termina na soleira da nossa porta.


E JÁ fez agora 60 anos que Gandhi que morreu

2 de março de 2008

Le Deuxiéme Sexe - O Segundo Sexo



«On ne naît pás femme, on le devient»


Simone de Beauvoir escreve O Segundo Sexo (Le Deuxiéme Sexe) em 1949.

Quando o li, às escondidas dos meus pais, teve enorme impacto em mim, pois já nessa altura, teria uns dezasseis anos, contestava as semanadas diferentes que eram dadas aos meus irmãos e a mim.

Pensar que foi escrito em 1949!

É esta data que é importante, porque esta Mulher defende, no primeiro volume do livro, a igualdade da Mulher perante o Homem.
Defende durante todo o livro, que a mulher não deveria abdicar da sua carreira, nem a favor do marido nem dos filhos.
Diz mesmo, que deveriam ser os homens a incentivar as suas mulheres para serem mais empenhadas nas suas carreiras e na política. Num mundo onde os dois fossem iguais, serião os dois mais livres.
E se hoje este volume parece datado, não o é apesar de tudo, pelo menos em Portugal.

A luta pela igualdade entre a Mulher e o Homem tem leis, mas não tem prática, nem em casa, nem no trabalho e muito menos na política.

O segundo volume debruça-se sobre a condição da Mulher em todas as suas dimensões, sexuais, psicológicas, sociais e políticas.
É Simone de Beauvoir que fala pela primeira vez no orgasmo feminino e na diferença psíquica que existe entre a ejaculação do homem e o orgasmo feminino.

O homem quando atinge a ejaculação, atinge também a pausa do desejo, senão mesmo o fim desse desejo.
A mulher quando atinge o orgasmo continua pronta para os que poderão seguir-se, visto a sua natureza ser mais psíquica do que fisiológica.

O prazer do homem sobe em flecha até atingir o orgasmo, e apaga-se de seguida, enquanto o prazer da mulher ondeia por todo o seu corpo, por isso o coito para ela nunca estar completamente acabado.
Por isso ser para a mulher tão “doloroso”a separação dos dois após o acto sexual e ela gostar de o ter dentro até todo o seu maravilhamento a deixar.

Evidentemente que há homens e mulheres que reagirão de modo diferente.

Este livro foi para mim, a abertura para o mundo da carne e do sexo, a hipótese de raciocinar sobre assuntos tabus, de que ninguém falava, e nem às amigas se dizia que se tinha lido.

29 de fevereiro de 2008

José Gomes Ferreira


O poeta militante como gostava de se considerar, foi sempre isso mesmo para mim. Penso que li toda a sua obra em prosa e menos da poética. Aliás sou um mau leitor de poesia e não sei entender muito bem porquê.

É uma contradição, provavelmente porque seja contra um certo formalismo que existe na poesia e de que não me consigo libertar, talvez porque ela em muito casos, também se não liberte.

Digo que é uma contradição, porque se existem autores cuja prosa, são nacos de poesia,ele foi José Gomes Ferreira e foi sempre o que me prendeu e apaixonou na sua obra.

Este é um dos homens que não posso deixar de referir nesta evocação que alinhei fazer com a Maria Faia (e com quem mais estiver interessado nisso, obviamente) ao recordar pessoas que marcaram a nossa geração.

Este homem nascido no Porto que nasceu no Porto em 1900, merece nas palavras de Sara Rodrigues o seguinte comentário :

José Gomes Ferreira imortalizou-se no campo da Literatura Portuguesa nas áreas da Poesia e da Prosa. Pertenceu à geração do Novo Cancioneiro, com evidentes influências surrealistas, simbolistas, e sobretudo neo-realistas.

A sua voz de protesto contra o mundo desconcertante, opressor, e simultaneamente monótono, do seu tempo, fez dele um "poeta militante" intemporal, trilhando caminhos já muitas vezes trilhados, mas nunca exactamente os mesmos.


A sua mensagem, sempre actual, é a vivência real de um homem e autor com os cinco sentidos despertos para tudo o que o rodeia, colocando o seu individualismo ao serviço da urgência do social. A sua vasta obra reflecte este seu desejo de mudar esse Mundo, o que acredita fazer com o poder da palavra.


Pequeno e breve comentário, com o qual concordo em absoluto, sendo certo que o serviço da urgência social, justifica a necessidade de o recolocar na minha mesa de cabeceira.

Destaco na sua obra
  • O Mundos dos outros
  • A memória das palavras-o gosto de falar de mim
  • A imitação dos dias.

23 de fevereiro de 2008

Zeca Afonso

Mais uma ano de saudade o 21º, passou pela morte do Zeca.

No aniversário das tua morte, não faltarão homenagens, algumas vindas de muitos daqueles que te consideravam um "comuna mercenário".

Hoje toda a gente te "teve" na juventude, Fazes parte da" boa memória" de toda a gente, Calculo que, até alguns que hoje "comem tudo e não deixam nada", se achem no direito de te recordar.

Os falsos socialista no poder e muitos daqueles que os aplaudem, se devem rever, mascarando as tuas Utopias, nas suas "realidades concretas da Nação", esquecendo-se que a realidade concreta deveria assentar no ataque firme e decidido, á fome, à miséria, á doença, á falta de condições de que padece o nosso pobre povo que, como foi "decretado" ser o mais pobre da UE a 25.

Que vergonha senhores falsos socialistas que nos governam, o que acham que o Zeca cantaria hoje, se fosse vivo ?

Tenha a certeza que o tema central seria o da vossa traição ao Povo.

Em vez desse ataque, chachadas de comboios ultra rápidos, aeroportos e as suas polémicas de milhões,estádios de futebol, e escumalha, muita escumalha no poder para se banquetearem com tudo isso.

Sendo essa a vossa causa, aos menos reneguem-no, olhem pró lado e assobiem para cima, o Zeca não é vosso.


Hoje prefiro não te ouvir Zeca, é que não me apetece chorar.

(Esta evocação enquadra-se perfeitamente na tarefa que com a Maria Faia, estamos tentado levar em frente, referindo pessoas que da nossa geração (minha e dela),ou anterior , que de certo modo duma maneira ou outra nos influenciaram na nossa educação e na que transmitimos aos nossos filhos.)


21 de fevereiro de 2008

Simone de Beauvoir



Simone de Beauvoir aos 50 anos
fotografia tirada do site Simone de Beauvoir



Simone de Beauvoir nasce em Paris a 9 de Janeiro de 1908 e morre a 14 de Abril de 1986.

É filha de um advogado e no seio de uma Burguesia média-alta.
É escritora, Filósofa Existencialista e Feminista.
Foi considerada “a mãe espiritual” da segunda vaga Feminista

Escreveu romances, ensaios, monografias sobre filosofia, política , sociedade, escrevendo, também, bibliografia entre as quais a sua própria.
Corta em definitivo com as suas origens Burguesas e vai viver sozinha.

Conhece Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista, em 1929.
Entra no círculo dos seus amigos, e desenvolve com ele uma relação impar para o seu tempo e ainda nos dias de hoje
Tem uma relação amorosa com Sartre que durou até à morte dele, mas sempre vivendo cada um na sua casa.
É uma relação aberta, ou seja, qualquer deles tem relações com terceiros.
Conseguem compatibilizar a sua relação conjunta com as suas liberdades individuais.

Edita o seu primeiro livro
- A Convidada, em 1943, cuja heroína, Françoise, é quase um alter-ego dela.
Em 1944 escreve O Sangue dos Outros. Nestes dois livros expõe a sua concepção da Liberdade de acção e a responsabilidade Individual
Volta a este assunto em 1954, com a Os Mandarins e é-lhe atribuído o Premio Goncourt

Em 1949 escreve O Segundo Sexo I e O Segundo Sexo II, um ensaio.
Mais tarde falarei destes dois livros, por serem tão polémicos ainda hoje em dia. Na altura foram uma revolução.

Escreve uma autobiografia em trilogia:
- Memórias de uma Rapariga Bem Comportada em 1958
- A Força das Coisas em 1963
- Tudo Dito e Feito em 1972

Em 1970 escreve A Velhice, onde, vejam lá, já faz críticas à maneira como a sociedade trata os idosos.

Em 1981 escreve A Cerimónia do Adeus, onde relata os últimos dez anos de vida de Jean-Paul Sartre, que era seu companheiro há mais de cinquenta anos. Uma espécie de diário da longa morte de Sartre

Estes são só alguns dos livros de Simone de Beauvoir, não sei se os mais importantes, mas aqueles que por terem sido mais referenciados, li.



19 de fevereiro de 2008

Boris Vian


De vez em quando lembro-me de Vian, de quem ouvi falar há muitos anos.

Hoje em pesquisas que fiz na internet e a propósito de Serge Reggiani que também cantou Boris Vian, lembrei-me de novo dele do quem era e da sua lenda, que chegou ao Maio de 1968, ele que afinal tinha morrido uns anos antes.

Engenheiro de profissão, mas não militante do trabalho específico, transferiu-se para profissão mais consentânea com o seu modo de ser boémio. tocador de trompete e músico de jazz, mas acima de tudo poeta, surrealista.

Foi "matador" do Colégio dos Patafísicos,a ciência que estuda as soluções imaginárias, que a física e a metafísica as ciências desprezam.

É a antítese da regra é a constituição de um universo complementar constituído por excepções.

Nada afinal assim tão despropositado, para que um português contemporâneo não possa afinal perceber, todo o surrealismo que nos rodeio, neste País de abastança para alguns e de miséria quase indigente para a maioria, com projectos de novo rico e fome na casa de muitos.

Proponho Sócrates para Sátapra dos Patafísicos portugueses.

Tudo foi dito cem vezes

E muito melhor que por mim

Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
e cago-vos na tromba


(Boris Vian)

Serge Reggiani canta Boris Vian o tema chama-se "Le deserteur", escrito no contexto da guerra de Argélia e que também José Mario Branco cantou na versão portuguesa e num contexto também ele Patafísico e que nós bem conhecemos


16 de fevereiro de 2008

Timor



Como já se notou não percebo nada de política, mas tenho as minhas ideias, e hoje vou-me pôr para aqui a raciocinar alto, o que aliás, me é completamente fundamental.

Não sei se já alguma vez viram, salvo os advogados, que penso também hão-de andar de um lado para o outro a pensar e a discursar, uma pessoa a pensar alto, no fundo a verbalizar o pensamento.

A mim é-me necessário e muitas vezes dou pelos erros, outras é o Funes que me vem ajudar, quando lê e para aí está virado.

Pugnei pela Independência de Timor, apesar de sempre ter pensado que muito possivelmente ficaria a ser um protectorado da Austrália.
Quando vi Xanana Gusmão, depois de ter sido Presidente de Timor, passar a candidato a 1º Ministro, cheirou-me a esturro.
Pensei que haveria alguma história por trás, sem perceber muito bem qual seria e sem me importar muito em me documentar sobre o assunto.
Continuo sem me documentar, por isso é que estou a pensar alto.

Que diabo, ninguém achou estranho que o Major Reinado tivesse sido morto uma hora antes dos atentados?

Que dizer das Forças das Nações Unidas, terem deixado entrar na cidade um pequeno grupo de revoltosos para atacarem o Presidente da República e o Primeiro-ministro?

Que dizer das forças Australianas não terem ido socorrer Ramos Horta?
Foi preciso ser a GNR (da qual fiquei verdadeiramente orgulhosa) socorrer Ramos Horta meia-hora depois de ter sido baleado?
Mas que estavam os australianos à espera? Que ele morresse?

Porque foi a só GNR, mais uma vez, à casa cercada de Xanana Gusmão, para de lá tirar a sua mulher e filhos?

Mas a quem interessa tudo isto?

Li agora uma notícia da RTP:

"……O relatório preliminar pede à PGR a emissão de quatro mandatos de captura que permitirão dar início a uma operação que deverá ser desencadeada pelas forças de segurança, incluindo a Polícia das Nações Unidas e a Polícia Nacional e que levará à prisão dos suspeitos…."

Mas estarão as Nações Unidas a brincar connosco e com os Timorenses?

UMA OPERAÇÃO QUE DEVERÁ SER DESENCADEADA PELAS FORÇAS DE SEGURANÇA, INCLUINDO A POLÍCIA DAS NAÇÕES UNIDAS E A POLÍCIA NACIONAL E QUE LEVARÁ À PRISÃO DOS SUSPEITOS

Mas estão todos doidos?
A polícia das Nações Unidas, a mesma polícia que não socorreu Ramos Horta e nem tentou salvar a mulher e os filhos de Xanana Gusmão, é que vai desencadear a operação para levar à prisão os suspeitos?

Mas o que é que se passa na cabeça daquela gente?
Mas não verão que não têm nenhuma moral, nem honestidade para fazerem o que quer que seja?

Mas não perceberão que são eles próprios os primeiros suspeitos?

São perguntas a mais sem nenhuma resposta.
São por enquanto os meus pensamentos, que se estão a inclinar forte e perigosamente para a culpabilidade da Austrália.

12 de fevereiro de 2008

DO PÃO E DO SOFRIMENTO


Q
uando os falcões roubaram o território aos patos e os obrigaram a viver numa pequena reserva sem as mínimas condições para uma vida decente, um vasto lamaçal enxameado de sujas clareiras e charcos mal cheirosos que, à primeira vista, mais não tinham para oferecer além do desconforto e as privações de um local onde nem os pauzinhos para os ninhos escapavam ao apodrecimento, quando as primeiras colunas daqueles patos desgraçados, arrebanhados à força, tiveram oportunidade de travarem impressões com aquele cativeiro de amargura e infortúnio, logo houve quem grasnasse que dali ninguém haveria de sair com vida.
Graças a Deus que tudo isso se passou há muito e, hoje em dia, só os mais velhos mesmo muito velhos é que ainda guardam na memória as histórias que lhes contaram aqueles que viveram o profundo desespero daqueles momentos.
Na verdade, quando os anciãos que encabeçavam os agrupamentos deram entrada nos domínios que os falcões lhes impunham como nova morada, a sensação que mais abundava naquelas almas era de uma estranheza que sustia as lágrimas mas, simultaneamente, também ofuscava a capacidade de discernimento relativamente a quaisqueres possibilidades de sobrevivência.
Como o poeta Gabriel haveria de cantar mais tarde, aquilo foi uma autêntica marcha da apatia.
Assim, não será de espantar que as primeiras vozes que se fizeram ouvir foram muito naturalmente as da fatalidade e da resignação. Patos e patas desfaleceram perante a incerteza quanto ao que fazer e logo entre eles correu o rumor de estarem a sofrer aquilo que consideravam um castigo divino.
Daí ao pranto miudinho e mudo de quem espera o vazio foi um movimento tão pequenino como lógico.
O velho Cassiel, o maior mergulhador de outras juventudes, chegou a grasnar que as nuvens deixariam de ter a companhia das asas dos patos.
Mas, nisto de multidões, há sempre quem pense de modo diferente e nunca desista de procurar o remédio para aquilo que está mal.
Foi o caso de Rafael, um pato de meia-idade que se juntou a uma série de outros indomados; por seu impulso, conjuntamente deram corpo à cata de uma solução.
O prodígio foi que depois de muito matutarem e palmilharem, lá houve alguém que soube descobrir o encanto de um trecho de salgueiros e arbustos numa ilhota orlada de juncos e dessa esperança se fez a discussão que iluminou os espíritos que acabaram por desencadear todo o rebuliço das mãos à obra para uma terra melhor.
Antes de mais, havia que formar um governo justo e capaz de trabalhar em prol de políticas benéficas para as diversas maiorias e minorias e, acima de tudo, era necessário dar trabalho às famílias para que todos pudessem ter pão e agasalho. Depois se esperaria que o labor de muitos conseguisse aumentar a riqueza que, a partir daí, a tempestade teria passado e, no horizonte, se fixaria a confiança de quem sabe o lugar que vai alcançar.
Foram anos de árdua lufa-lufa geral e dos pântanos se fizeram rias, aqui e ali com boas reservas de alimento, das ilhotas e das clareiras se fizeram sítios de aprazível hospitalidade e, com base num comércio sabiamente concretizado, conseguiram construir um país que rapidamente se passou a orgulhar de vender os seus encantos ao turismo sazonal de outras aves.
É claro que Rafael que, actualmente, Deus há muito já guarda em sua companhia, foi o primeiro Presidente daquela pátria arrancada à desgraça e às muitas lágrimas e suor do sofrimento e o povo, reconhecendo-lhe méritos e sabedoria, elegeu-o ainda mais duas vezes para aquele mais alto cargo.
E ainda hoje ele é recordado pela energia que das suas palavras saía e as forças que o seu exemplo incentivava.
A diferença está em que os patinhos que, nos dias que correm, nos bancos de escola, lhe estudam a vida e a obra, fazem-no com a barriguinha farta e com límpidos laguinhos para que depois se possam deixar sonhar com as suas brincadeiras.

10 de fevereiro de 2008

An Affair to Remember


Hoje num filme que vi na TV, alguém disse sobre o filme An Affair to Remember (O grande amor da minha vida), que era um filme para miúdas.

Tenho esse filme de 1958 bem presente como uma daqueles que eu considero um dos filmes da minha vida.

Recordo-o perfeitamente, interpretado por uma das minhas actrizes favoritas Deborah Kerr , falecida salvo erro o ano passado.

Recordo esse filme que vi na minha adolescência e que me marcou profundamente, de tal modo que dei por mim durante muito anos a pensar que o amor deveria ser assim, profundo, quiça definitivo, e desinteressado.

Sem por em causa, ainda hoje nenhuma destas particularidades a vida ensinou-me ao longo dos anos por experiências, nalguns casos vividas, noutros como mera testemunha, que deve também acrescentar-se uma outra condição, fundamental para que seja duradouro, a dessimulação de se ser absolutamente dependente de alguém por amor.

Parece um paradoxo, quase como se eu estivesse a dizer, que só se deve amar alguém a conta gotas e em dose moderada. Não, deve amar-se intensa e profundamente, é bom que assim seja, mas deverá sempre guardar-se uma parte dele,só para nós, como se fosse um acto íntimo.

É que já ninguém gosta de ser adorado, talvez só no tempo da Deborah Kerr .

Eis a cena final


6 de fevereiro de 2008

Eleições Americanas II



No começo estive sempre por Hillary Clinton.

Por ser Mulher, evidentemente,
por ser Democrata, mais evidente ainda,
por ser competente, evidência ainda maior.

Mas entretanto apareceu Barak Obama, negro, o que apesar de tudo pesava bastante, mas não o suficiente para me passar pela ideia mudar.

Mas ouvi, no youtube, o seu discurso de vitória no Iowa, uma maravilha, dei uma volta de 180º.
Passei-me em definitivo para Barak Obama.
Quando o acabei de ouvir, o que pensei de imediato foi:

Ganha, se não o matarem primeiro.

Todos falam em Martin Luther King, é evidente que lembra, que vai buscar os ritmos e algumas palavras-chave.
Mas quem ele faz lembrar, de onde são as ideias, tudo o que ele propõe, é Robert Kennedy.
Mataram Bob Kennedy, exactamente pelas ideias e pelas políticas propostas.

O que não desculpo a Hillary Clinton, são as lágrimas frente às câmaras, mesmo se reais fossem.
O que não desculpo a Hillary Clinton, é fazer chantagem, tentando mostrar uma fragilidade de mulherzinha, quando o não é. Se o fosse, jamais me teria tido do seu lado.

Entretanto Bush põe, mais uma vez, a sua máquina a trabalhar, e vem falar do perigo dos terroristas, porque o que não há dúvida é que mais do que se saber quem foram os terroristas é fazer com que todo o povo americano, e europeu, ande cheio de medo dos terroristas.

A Carlyle, uma das grandes empresas americanas, cujos donos são a família Bush , a família de Bin Laden e os príncipes Sauditas, tem ganho fortunas e quando digo fortunas estou a falar de num só dia terem ganho doze mil milhões de dólares, com as guerras tanto do Afeganistão, já praticamente perdida, como com a guerra do Iraque e não quererem que acabem.

Barak Obama ganhou em South Caroline, o que apesar das campanhas a favor de Hllary, não é de estranhar.

Espero que 40 anos depois de Bob Kennedy se consigam implementar as suas ideias através de Barak Obama.

Espero que a América tenha o bom senso de votar na mudança, na lufada de ar fresco que Barak Obama simboliza.

É bom que tenhamos a ideia que pior que Bush, nunca haverá nem para a América, nem para o Mundo.

Miguel Sousa Tavares dizia, com graça, que deveríamos todos votar nas eleições americanas; estou de acordo com ele, apesar de pensar que se não for Barak a ganhar, a América e o seu poderio acabarão mais depressa do que se está a prever e já não serão suficientemente importantes, para querermos votar nas suas eleições

Voto em Barak Obama, com toda a convicção.

3 de fevereiro de 2008

Eleições Americanas I

Ando há muito tempo para falar das eleições americanas.

Mas antes disso, para fundamentar as minhas posteriores afirmações, gostava de recordar o atentado de 11 de Setembro de 2001.

Recordar o que vi, recordar o que pensei e afirmei várias vezes, recordar o que reformulei depois de ter visto o documentário do Michael Moore Fahrenheit 9/11.
Recordar que vi, quantos de nós não teremos visto, em directo o embate do segundo avião já não sei em qual das Torres Gémeas, o que para o caso é indiferente.

Lembro-me que pensei e disse para o meu marido, com ar de espanto: o avião não explode!
Ainda discutimos por ele achar normal, argumentando eu que o depósito estava cheio, que o avião deveria explodir, que não se percebia como tinha feito tão poucos estragos.

Longe, estava tão longe da hipótese levantada por Michael Moore.

Recordo o espanto por ter sido, a segunda Torre a ser atingida, a que tinha menos estragos, a primeira a ruir. Recordo o choque de não se verem bocados grandes de escombros, a saltar, de só se ver pó e papeis pelos ares e os escombros aos bocadinhos.
Eu só perguntava como se tinha desintegrado, e recordo bem ter usado a palavra desintegrado.

Recordo Bush sem ser capaz de dizer coisa com coisa, fazendo figura de ainda mais parvo, do que já era.
Enfim. Depois vieram as explicações políticas.

Contra tudo e contra todos, quase queimada em fogueira, mesmo pelos amigos, disse sempre que a América com a política externa que mantinha, só tinha feito inimigos.
Que fazer inimigos, tem um preço alto que mais cedo ou mais tarde é cobrado.
Estive tão à beira da fogueira que deixei de dar a minha opinião, mas só de a dar, porque sempre a mantive.

Antes de ver o tal documentário do Michael Moore, soube do escândalo que tinha feito na USA; de que tinha sido proibido em vários Estados Americanos…mas ninguém o desmentia.

Aí, insinuou-se a dúvida. Se, pelo que se ouvia dizer, era tão fácil desmentir os factos por ele narrados e mostrados, porque não havia ninguém na USA que o fizesse, quando Michael Moore atacava as mais altas esferas americanas?

Depois vi o documentário Fahrenheit 9/11, que tem um ritmo impressionante, que dá informação baseada em investigação séria, mas tanta e tão compacta informação, que mal saiu em DVD o comprei.
Acho que o vi na mesma noite três vezes seguidas. Que andei para trás e para a frente tantas vezes que ainda eram seis da manhã, olhos inflamados, quando me fui deitar.

Aquilo era sério, muito sério.
E reformulei.

O atentado foi feito com conhecimento das mais altas esferas americanas.
Elas, as mais altas esferas, estiveram envolvidas no atentado.

A guerra do Iraque, uma farsa. Sempre estive contra ela e fazia-me impressão porque havia tantas pessoas que não conseguiam ver o que eu via. Não quereriam ver?
Agradeci na altura, e ainda hoje o faço, a Jorge Sampaio, por não ter deixado que fossem tropas nossas para o Iraque, tal como Durão Barroso queria, que se teve de contentar em mandar a polícia.

Não está feita ainda a história do mandato de Jorge Sampaio, mas penso há muito tempo, que foi o melhor Presidente, o melhor político que Portugal teve, de há muitos, mas mesmo muitos anos para cá.

30 de janeiro de 2008

Assassinado pelo bloco central


Decorre no sábado o centenário do regicído de D.Carlos I e de seu filho mais velho e herdeiro do trono, o meu homónimo Luís Filipe.

Não é o sítio nem o local para descrever todos os factos quer da ocorrência, quer das causas que motivaram, esse facto que se adivinhava na altura e tinham alguns como inevitável.

Fala-se hoje se a eventualidade da abdicação no seu filho poderia eventualmente evitar esse derramamento do sangue, eu direi peremptoriamente que não.

A crise era já longa, profunda e decorrente do evoluir das novas ideias, que emanavam do liberalismo, já então na sua evolução republicana e igualmente radicalizada pelas teorias anarquistas.

As culpas próprias inerentes ao seu diletantismo, no agravar dessa crise foram inquestionáveis, culminando no seu apoio directo a ditadura de João Franco, tida como a causa próxima do desenlace fatal.

Importa também referir o quanto D.Carlos foi igualmente vítima de ser rei dos portugueses. Primeiramente da estultícia imbecilóide de alguns políticos portugueses, País onde a maioria do povo passava fome, que não se desenvolvia, se cravava de dívidas, que não tinha indústria, pretender ser dona de meia África, só porque se mandava um punhado de exploradores valentes atravessá-la de costa a costa.

A isso se achavam com direito, políticos de um País que não tinha dinheiro sequer para criar uma carreira regular marítima para a Guiné.

Era este país de se achava no direito de afrontar a poderosa Inglaterra no apogeu do seu imperialismo encabeçado por Cecíl Rhodes.

Foi esta gente, essa corja de políticos que o rodeavam, que perante o definitivo e impaciente Ultimatum de 1890, proposto por uma Inglaterra fartíssima de os aturar, que sempre se refugiou atrás dum pseudo patriotismo, deixando ao rei o libelo acusatório de traição à Pátria e de colaboracionismo com os ingleses, quando toda a gente sabia que não havia outro caminho a seguir senão ceder.

Se por natureza D.Carlos nunca foi um rei popular, eventualmente por timidez, pois na intimidade parece que era muito simpático, esse acontecimento em definitivo arrasou a sua popularidade e viria a feri-lo de morte.

A queda da monarquia era inevitável, mas afirmo convictamente que mais do que os tiros da pistola carbonária que o matou foi a habitual mentalidade dos políticos portugueses, que preferem os seus próprios interesses partidários aos do País, que "preparam" a morte do rei.

Nesse tempo o conluio político-partidário chamava-se rotativismo, pois também já havia bloco central esses sim os verdadeiros regicidas qua armaram a mão de Buiça.

26 de janeiro de 2008

As Teias e as Aranhas



Claro que cada um tem a sua maneira de ver e sentir o amor.
Alguns sentem a sua força, comparável a uma teia de aranha.
A imagem pode não ser bonita assim escrita, mas se pensarmos numa teia cheia de gotículas



de orvalho, como a da imagem em cima, percebemos a beleza que pode ser, tal como o Amor.

As aranhas são exímias tecedeiras, tal como o Amor tece os seus desígnios.

Os fios das aranhas são cinco vezes mais fortes que o aço, tal como os laços do Amor

A teia pode esticar mais de quatro vezes o seu tamanho, o Amor cresce muito mais do que isso.

Se o fio da aranha tivesse a grossura de um lápis, podia parar um Boeing 747 em pleno vôo, tal como o Amor pode parar investidas de outros, interessados em o destruir.

Pescadores da Polinésia usam fio de aranha como linha de pesca, assim como o Amor pode “pescar” quem quiser.



As aranhas produzem fios em quantidade e espessura adequadas para construírem as suas teias, assim como nós deveríamos produzir cumplicidades para construir o nosso Amor.

Algumas aranhas, constroem no centro da teia outra pequena espiral, ou uma rede de malhas, que funciona como "refúgio", assim como nós deveríamos construir “refúgios” para o nosso Amor.

As aranhas reparam constantemente as suas teias, tal como nós deveríamos ter o cuidado de o tratar.


Há aranhas cujos fios são tão finos, que não são vistos por olhos humanos, a não ser orvalhados, assim deveria ser o nosso Amor orvalhado por mel.

O Amor constrói-se pela vida fora, hora a hora e dia a dia.

23 de janeiro de 2008

Que amor não me engane

O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio, que, deitado
Onde co vento a água se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:

- Ondas – dezia – antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.
-
-
Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
-
"Para fazer amor, para mim, é sempre necessário amor e paixão, e por isso mesmo é fazer sexo, duro e puro, selvagem de preferência." - escreve a Maria Faia dois posts abaixo.
Para comentar esta afirmação, escolho começar com dois poemas de Camões: um, o primeiro, que eu não hesito nunca em colocar na lista dos dez mais belos poemas da língua portuguesa; outro - "Amor é fogo que arde" - que não hesito nunca em colocar na lista dos dez mais infelizes poemas da literatura universal.
Um verbo os separa e qualifica: o verbo ser.
Em "O céu, a terra, o vento sossegado" o verbo ser aparece uma vez, uma única vez, na forma negativa e para declarar que o nome amado não pode ser mais do que nomeado, que nomear o nome do Amor é deitar ao vento a voz que o vento há-de levar.
Inversamente, o segundo e infeliz soneto está saturado do verbo ser, saturação que o oxímoro que sempre se lhe segue não logra atenuar.
Um verbo, qualquer verbo, é sempre uma entidade demasiado concreta para poder ser usada ao falar do amor (por isso, o verbo é sistematicamente omitido no primeiro soneto; também por isso, ele é tão belo). O verbo ser é o mais concreto de todos os verbos e, por consequência, o pior para alcançar esse êxtase diáfano, transcendente, indefível que ocorre quando digo "AMO".
E talvez esteja aí, no "AMO", a linha ténue da fronteira entre o amor, a paixão, o sexo e o fazer amor, fazendo sexo.
"AMO" - grita desesperado ao vento o pescador Aónio, nomeando o nome amado que, à morte sujeito, não pode ser mais do que nomeado. "AMO" - chora o pescador Aónio, sabendo que o seu verbo nunca se fará sexo, nunca devirá fúria orgásmica, nunca chegará a ser "AMO-TE".
Mas, quando alguém fala de AMOR, nunca sabe do que fala.

22 de janeiro de 2008

Quando for grande quero ser como o Robin


A atracção pelo meu baú de recordações, não para de apelar à minha atenção.
Nem me apetece negar que isso seja um sinal de velhice, admito perfeitamente que sim.
Também não acho que esse sintoma seja um sinal de saudosismo que penso, ser maleita que não me aflige.

Confesso que gosto de rever algumas imagens, porque também acho que vistas com olhos de ver, que neste caso só eu sei descortinar, podem também ser reveladora de certa maneira do que são os traços do nosso carácter.

Tudo isto para explicar, como se vê, que estou mascarado de Robin dos Bosques.

Lembro-me ainda hoje perfeitamente, que era um fã dessa história passada nos bosques de Sherwood, no tempo do usurpador João, que se havia apoderado do trono de Ricardo coração de leão, que envolvido nas cruzadas havia sido aprisionado.

Alguém me lera essa história, que me apaixonara e provavelmente desde essa altura e ao longo da minha vida tenha sempre preferido o lado dos que lutam pela liberdade, pelos mais desfavorecidos e abomine usurpadores, traidores e respectiva corte.

Relembro que nesse tempo não havia a industria de máscaras de Carnaval já feitas, pelo que toda ela foi confeccionada pela minha mãe, (menos s botas claro). O arco, as flechas e o respectivo suporte para as ditas, tudo feito por um tio meu que na altura connosco vivia.

Não explico por não saber a razão porque apareço mascarado de "canhoto", segurando o arco ao contrário da minha tendência natural de dextro.

Talvez contudo, também aí possa haver um sinal que tenha ficado para a vida, esta mania de ser "esquerdalho empedernido."

Como eu desejo ainda hoje ,quando for grande, vir a ser como o Robin Hood.

Temas e Instituições