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6 de agosto de 2008

Na década da autocracia europeia

Os indícios de autoritarismo que se estão a desenhar no nosso País desde o passado ano de 1926, são preocupação, como já disse mas sobretudo porque estão perfeitamente enquadrados, com acontecimentos que ocorrem no mesmo sentido em vários pontos da Europa.

Em Itália o regime fascista abole o cargo de elegível de presidente da Câmara,substituindo-o pelo de corregedor nomeado pelo governo civil. Alguns atentados contra Mussolini só agravaram o aperto reaccionário com a aprovação das leis fascistissime, com o desaparecimento de todos os partidos da oposição e a criação duma polícia especial a OVRA, para reprimir os anti-fascistas, culminando a sua acção com a prisão de António Gramsci,


lider do Partido Comunista Italiano.

O regime fascista "reestrutura" as relações entre o capital e o trabalho, criando o ministério das associações, ensaiando o corporativismo, acabando com a greve e o lock-out, estatificando e controlando a "luta de classes".


Em Espanha, Primo de Rivera celebra um tratado de amizade com a Italia, estabelecendo relações de amizade entre as duas ditaduras, ao mesmo tempo que a Alemanha é admitida na Sociedade das Nações, recebendo um lugar permanente no Conselho.

A URSS assina um tratado de amizade e neutralidade com a Alemanha, enquanto a luta interna pelo poder se vira em absoluto para o lado de Estaline, secretário-geral do PCUS, qu acaba por controlar firmemente todas as alas do Partido.

Está cada vez mais débil e oposição movida por Trotsky e Zinoviev, que se clamavam contra a crescente burocratização e contar o apego estalinista a uma nova máxima a seu ver anti-revolucionária, do "socialismo num só país".


Há efectivamente por todo o lado um forte movimento de contestação às liberdades políticas acentuando-se a tendência, para o autoritarismo estatal, sinceramente espero que não venha a acontecer em Portugal, muito embora os acontecimento deste último ano de 1926, não me dêem grandes esperanças,

O movimento militar e civil desencadeado em Fevereiro deste ano contra a ditadura militar, foi completamente desbaratado quer no Porto onde começou quer em Lisboa.O saldo foi violento, mais de 600 prisões, centenas de mortos e milhares de feridos.

Não admira que as felicitações ao governo da ditadura tenham partido das entidades patronais e dos países acreditados em Portugal por iniciativa do núncio apostólico.

Todos os funcionários públicos envolvidos nos movimentos reviralhistas foram demitidos, destacando-se algumas figuras proeminentes como Jaime Cortesão e Raul Proença, fundadores da Seara Nova e que eram directores da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Em 10 de Março soube que foi publicado em Coimbra uma nova revista a que os seus criadores chamaram a Presença. A avaliar pelos nomes dos seus fundadores José Régio,João Gaspar Simões,Branquinho da Fonseca e Edmundo de Bettencourt auguro que façam um bom trabalho, embora tema pelo seu futuro.

Casa Comum, 20 de Março de 1927

5 de julho de 2008

Agitação nas ruas e demasiada calma cá em casa

Gostei de ler o livro de poesia desse jovem vila-condense recém formado em Filologia Românica, chamado Poemas de Deus e do Diabo, que dá pelo nome de José Régio.

Interessante para livro de estreia que reflecte a ansiedade dos tempos que se vivem as dificuldades económicas mas sobretudo a insegurança política.

Os atentados bombistas sucedem-se, com ataques que por vezes são semanais

É a cultura que adocica a alma e torna os momentos de insegurança mais suaves, mas o povo esse não tem alternativas sofre insegurança e tiroteio pelas ruas.

Pus a tocar na grafonola, este magnífico trecho do jovem compositor Villa Lobos, saído no ano passado que dá pelo nome de Choros nº5-Alma Brasileira, de que tenho gostado imenso desde que os começou a publicar em 1920 essa colectânea instrumental chamada Choros.

É assim que me consigo abstrair de toda a agitação política, ainda marcada pelos dois facto mais relevantes as sequelas do caso Alves dos Reis e o fim do monopólio dos tabacos.

No Parlamento ainda em Janeiro, Amâncio de Alpoim, criticou severamente a administração do Banco de Portugal de ser uma caverna de falsificadores e ladrões, mas as opiniões dividem-se aventando as hipóteses possíveis com grande veemência, para uns o caso Alves dos Reis está relacionado com um vasto plano soviético, ou para outros um ferrete de estrangeiros.

A Revolta de Almada, em Fevereiro passado, reflecte a confusão política. A revolta chefiada pelo construtor civil José Martins Júnior, reunindo outubristas, sidonistas, ex-democráticos, formigas pretas e radicais, tentou tomar de assalto o Quartel da Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas.

Nada que se pareça contudo, com a revolta militar de 18 de Abril do ano passado, mas parece-me que no meio militar existe uma simpatia crescente por soluções ditatoriais, tipo Primo de Rivera em Espanha ou o exemplo fascista italiano .

O cansaço de sofrer também "empurra" o povo para o apoio a soluções desse tipo, a meu ver contra-natura.

Ouvi dizer que amanhã Afonso Costa, vai presidir à Assembleia Geral da Sociedade das Nações, o que é sempre uma honra para o País, mas o Afonso Costa desde que se exilou em 1918, só ocupa lugares na cena internacional, nunca mais quis ocupar cargo na política nacional, embora muitas vezes tenha sido convidado.

Há políticos assim, muito portuguesismo mas quando chega a hora do prestígio pessoal e do dinheirinho ganho lá por fora não querem outra coisa

Estou ainda a aguardar a chegada da nova governanta beirã, que se chama Maria de Jesus de quem espero, saiba administrar este casarão que embora actualmente sem hóspedes, espero venha a ter em breve alguns inquilinos.

Já pus anúncio no O Século e no Diário de Notícias, com o seguinte teor

Aluga-se Quarto, na Casa Comum, a pessoa interessada, em compartilhar este espaço e com disponibilidade para os serões à conversa, sobre qualquer assunto interessante do nosso tempo,
Esmerado tratamento de roupas, e sistema de refeições caseiras a combinar.

Casa Comum, 7 de Março de 1926

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