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31 de maio de 2009

O prisioneiro pessoal do sr.Adolfo




Casa Comum, 31 de Maio de 1938
Cara amiga

Fazendo de André Gide, poderei perguntar-lhe "Quem é este novo Jean Paul ?", referindo um novo nome das letras francesa que dá pelo nome de Sartre, o tal Jean Paul, a propósito dum livro seu chamado a Náusea, onde nos fala de Antoine Roquentin, um historiador letrado e viajado, que chega à cidade de Bouville, (em tradução livre a cidade da lama), para escrever uma biografia e acaba por fazer uma análise violenta à nossa sociedade burguesa, a mim a si e a todos nós.

Diga-se em rodapé muito mais critica à sociedade dele a francesa, que à nossa, essencialmente pacóvia e retrógrada do Portugal de hoje
.

Este homem a continuar assim, vai por certo, sacudir o pensamento moderno, para já não falar, da sua própria vida privada e do seu casamento com Simone de Beauvoir, a quem ela trata por "meu pequeno ser", aludindo a pequena estatura física de Sartre.

Fala-se que ambos vivem a sua relação, sem partilharem o mesmo tecto, sendo ambos livres para outros amores. Tudo no pressuposto da liberdade.

Liberdade que os novos poderes emergentes na Europa próxima, detestam, isto a propósito do julgamento de Martin Niemöller na Alemanha de Hitler.

Trata-se dum pastor luterano, que se atreveu a contestar
a tirania do Adolfo, muito embora tenha em 1924 votado no partido hitleriano, após a subida destes ao poder, em 1933, Niemöller – então pároco em Berlim-Dahlem – entrou em conflito crescente com o novo governo.

Numa recepção na Chancelaria em Berlim, ele contestou o ditador pessoalmente. Segurando a sua mão fortemente disse-lhe: 'Sr. Chanceler, o senhor disse que devemos deixar em suas mãos o povo alemão, mas a responsabilidade pelo nosso povo foi posta na nossa consciência por alguém inteiramente diferente'.

Em Fevereiro deste ano. começou o seu julgamento diante do Tribunal Especial II em Berlim-Moabit, pondo fim a um longo processo de perseguições que culminaram com a sua prisão.

Segundo a acusação, Martin Niemöller teria criticado as medidas do governo nas suas pregações "de maneira ameaçadora para a paz pública", teria feito "declarações hostis e provocadoras" sobre alguns ministros do Reich e, com isto, transgredido o "parágrafo do Chanceler" e a "lei da perfídia".

A sentença foi de sete meses de prisão, bem como 2 mil marcos de multa.
Os juízes consideraram a pena como cumprida, em função do longo tempo de prisão preventiva. Niemöller deveria assim ter deixado a sala do tribunal como homem livre.

Para Hitler, no entanto, a sentença pareceu muito suave. Ele enviou o pastor como seu "
prisioneiro pessoal", para a prisão, até que lhe apeteça liberta-lo.

Todos os dias temos que falar em liberdade, ou melhor dizendo, na falta dela, muito embora por cá tudo aparente tranquilidade e paz, sob a benção do senhor da Calçada.

A festa do trabalho "nacionalizado e institucionalizada" a 1 de Maio, este ano foi em Viana do Castelo, o desfile naútico do Dia da Marinha foi no dia 5 e o acampamento nacional da Mocidade Portuguesa, são os eventos políticos do mês de Maio.

Por mim prefiro, fazer-lhe o convite para ouvirmos a 6ª Sinfonia de Mahler.

16 de maio de 2009

Anschluss invento do sargento Hitler


Casa Comum, 2 de Maio de 1938

Amiga Severa

É sempre demorada a concretização de projectos em Portugal, pois como o Dr.Salazar gosta de tudo controlar e é supinamente desconfiado,nada se faz que não demore uma eternidade.

Isto a propósito de em Março passado se ter inaugurado oficialmente o Parque Florestal de Monsanto, pelo presidente Óscar Carmona, que plantou a primeira árvore, dum projecto que agora foi concretizado mas que começou em 1934 por iniciativa do agora presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Duarte Pacheco.

Contudo passado 4 anos aí está plantada a primeira árvore, que não pode considerar-se demasiado, atendendo ao facto de ser necessário proceder a expropriações e muitas outras questões burocráticas. Nesta perspectiva não é demasiado tempo, contudo se se acrescentar que a ideia inicial partiu dum engenheiro silvicultor chamado João Maria de Magalhães que desde 1868, defendia este projecto, será então uma enormidade.

Informaram-me que no passado dia 27 de Março, vitimado por uma biliose anúrica sem qualquer assistência médica nem medicamentos, morreu no Tarrafal, Arnaldo Simões Januário, um barbeiro de Coimbra, militante anarquista, organizador dos sindicatos e da luta operária, na sua terra.Militante libertário da "União Anarquista Portuguesa". A sua morte põe termo a um lomgo historial de prisões, pelo menos desde 1927, na sequência da repressão sobre o movimento operário depois do 28 de Maio. Morreu no Tarrafal, menos dum ano depois de para lá ter sido enviado, cumprindo os 20 anos de prisão a que fora condenado, por ter afirmado, perante os seus carrascos que tomava inteira responsabilidade pela organização do Movimento Grevista, da Marinha Grande de 18 de Janeiro de 1934.

Adoraria festejar a primeira reunião do Conselho Académico, da recém fundada Academia Portuguesa de História, cujos fins são claramente definidos nos Estatutos, cujo texto refere tratar-se de uma «agremiação de especialistas que se dedicam à reconstituição documental e crítica do passado».

Seria, esta Academia, a legítima herdeira da mais antiga Academia Nacional – a Academia Real Portuguesa da História, fundada por D.João V, conforme Decreto de 8 de Dezembro de 1720, mas receio que os seus objectivos não sejam cumpridos, ou pior ainda que sejam colocados ao serviço da Ditadura, que também neste campo não deixará por certo de colocar a gloriosa história do nosso país, ao seu serviço.

Estou banzado minha querida, pelo silêncio das nações europeias, face ao desplante do sr.Hitler em anexar a Austria à Alemanha, em nome do seu famoso "Anschluss” e da necessidade de criação de espaço vital, para que possa cumprir o "sonho" de trazer todos os alemães para a Alemanha. o sargento Hitler ele também austríaco, cumpre-o agora, já que em 1935 não o conseguiu.

Até onde irão as tendência expansionista do senhor, mas pergunto até onde irá a complacência das nações livres europeias ?


Hoje só Beethoven me acalma, o meu convite vai para ouvirmos o Triple Concert.


11 de maio de 2009

Nódoa de sangue a alastrar no céu

Casa Comum, 10 de Fevereiro de 1938

Cara amiga

Não sei se soube mas no passado dia 25 de Janeiro a nossa gente lisboeta entrou em perfeita em histeria por causa duma aurora boreal, cujo aspecto avermelhado alastrava pelo céu, prenunciando para alguns o fim do Mundo.

A particularidade nacional, que se traduz, na necessidade, mesmo enfrentando todos os perigos, de ver melhor, essa obsessão de ver tudo fez com que, segundo relata o Diário de Notícias, "À porta da igreja da Estrela esteve para ser preso um indivíduo que pretendia arrombar a porta que dá para o zimbório, a fim de observar lá do alto o que se passava nas regiões celestes. O guarda e o sacristão tiveram de chamar a polícia, pois é proibida a subida ao zimbório depois do pôr do sol."

Ao que parece lá para a Meia Laranja muita gente se juntou mesmo em trajos sumários "aguardando com ansiedade o fim do mundo, de que supunham anúncio infalível aquela mancha vermelha, que se alastrara no céu estrelado como uma grande nódoa de sangue"

Foi assim que a "sarapanta", como chamam os pescadores do bacalhau à aurora boreal, habituados que estão a vê-la por terras da Terra Nova e Groenândia, semeou o pânico por todo o lado.

Não fossem os zunzuns que a contestação provocada em alguns sectores das Forças Armadas, pelas "reformas" introduzidas pela acção de Oliveira Salazar, poderia conduzir a um golpe militar contra o Estado Nove e ficaríamos a pensar que o facto da PSP, a GNR e Legião Portuguesa, terem sido colocadas em estado de alerta e poderíamos ser levados a concluir, que o objectivo fosse prender a D.Aurora Boreal.

Fui à estreia de mais um filme português, a Rosa do Adro de Chianca de Garcia, sempre com a esperança que comecemos a deixar de gatinhar e iniciemos o caminhar, no sentido de fazer melhor cinema. Fui ao Trindade no passado dia 3, e vi por lá gente habitual nesta coisas.

O filme contava com a linda e talentosa Maria Lalande(Rosa), o Tomás de Macedo(António) e o Oliveira Martins (Fernando), entre outros.




Também assistimos nos nossos dias, a uma crescente onda de nacionalismo na América Latina. Na Bolívia o ano passado um governo militar confiscou as propriedades da Standard Oil e no México os trabalhadores do petróleo pressionam o governo do presidente Cardenas também para a nacionalização.

Deixo-lhe a interpretação da Lucha Reys essa notável cantora mexicana, como exemplo, da tomada de consciência que os povos da América do Sul, estão atingindo no sentido de sacudir a pressão das forças imperialistas.

4 de maio de 2009

Um exército de bajuladores


Casa Comum, 30 de Dezembro de 1937

Cara amiga

O certo é que a nossa vida política, continua marcada por dois acontecimentos, a guerra cívil de Espanha e a consolidação da ditadura salazarenta e da consequente aliança com o nacionalismo espanhol.

Bem que fora de portas, se tenta que a união dos anti-fascistas portugueses e espanhóis, consiga florescer, mas a morte duma das suas figuras mais proeminentes da república portuguesa, Afonso Costa em Maio deste ano veio complicar o desenvolvimento dessa propaganda muito embora Bernardino Machado, tenha inclusivamente transferido a sua residência do Mónaca para Paris para substituir Afonso Costa no Comité ali formado.

No passado Verão, Bernardino Machado dirigiu-se a Juan Negrin, Presidente da Assembleia da Sociedade das Nações, protestando contra a atitude da Ditadura de se aliar com os governos alemão e italiano nesse apoio a Franco.

Como disse Bernardino Machado “servir os inimigos da nova Espanha livre é servir os inimigos seculares do Portugal restaurado”, reavivando a questão das ambições alemãs sobre as colónias portuguesas.

Os contactos com a "resistência" em Portugal, segundo um relatório de Roberto Queiroz, um representante daquele comité que se deslocou a Portugal para tentar conseguir adesões foi bastante negativo. Nesse relatório, Queiroz dizia que era difícil obter o apoio de grande parte dos adversários da ditadura, pois constatara que, seria inviável qualquer projecto de revolução sem o apoio do Exército, e o único militar republicano que poderia congregar vários sectores do Exército era Ribeiro de Carvalho, e este não mostrava empenho em assumir a chefia militar de uma revolução.

Como se vê minha amiga, o exército português está perfeitamente engajado à ditadura, prefere a bajular o ditador, do que servir a Pátria.

Enquanto isso Salazar nomeia o amigo Pedro Teotónio Pereira como o agente especial de ligação junto de Franco. Depois de ter sido de 1933 a 1936 subsecretário de Estado das Corporações e dois anos como Ministro do Comércio e Indústria, foi agora nomeado para este "importante cargo" na esfera da diplomacia da ditadura, que pasme-se, contraria a política oficial da Inglaterra.

Costa Leite o antigo discípulo, outra da fidelidades de Salazar em acumulação com o comando da Legião foi agora nomeado Ministro do Comércio e Indústria, substituindo Garcia Ramires, o que poderia não ter nenhuma importância especial, não fosse o acentuar da tendência para cada vez se fechar mais o grupo dos eleitos em torno do ditador, tenho a sensação que cada vez é mais restrito o número dos "eleitos" perto do ditador, o que talvez possa significar alguma insegurança e muita cautela, talvez como consequência do atentado falhado a 4 de Julho.

A consequência desse atentado foram detenções, muita detenções e mais repressão, fala-se em Ernesto Faustino, operário, José Lopes,operário anarquista, morre durante a tortura, Manuel Salgueiro Valente, tenente-coronel, (no exército há sempre alguém que resiste) que morreu em condições suspeitas no forte de Caxias, Augusto Costa, operário da Marinha Grande, Rafael Tobias Pinto da Silva, Francisco Domingues Quintas, Francisco Manuel Pereira, marinheiro de Lisboa, Pedro Matos Filipe, de Almada e Cândido Alves Barja,marinheiro, de Castro Verde, que morreram no espaço de quatro dias no Tarrafal, vítimas das febres e dos maus tratos; Augusto Almeida Martins, operário, é assassinado na sede da PVDE durante a tortura ; Abílio Augusto Belchior,operário do Porto, morre noTarrafal, vítima das febres e dos maus tratos.

Todos militantes do PCP e deixo-lhe a lista dos nomes que me chegaram ás mãos, para que fique bem claro, que eu não lhe disse apenas que morreram alguns, digo-lhe quem foi que morreu e não acredito que todos eles estivessem envolvidos no atentado, mas na sequência comem por tabela.

Para acabar a "chatisse " da política como vc lhe chama, deixo-lhe a mensagem que Paiva Couceiro um insuspeito monárquico disse a Salazar, numa carta que lhe enviou

Cantam-se loas às glórias governativas e ninguém pode dizer o contrário. O Portugal legítimo do "senão, não" foi substituído por um Portugal artificial, espécie de títere, de que o Governo puxa os cordelinhos.

Vela a Polícia e o lápis da censura. Incapacitados uns por esse regime de proibições, entretidos outros com a digestão que não lhes deixa atender ao que se passa, e jaz a Pátria portuguesa em estado de catalepsia colectiva. Está em perigo a integridade nacional. É isto que venho lembrar.

Em memória de tanto morto, em Portugal e em terra dos nossos vizinhos espanhóis, vamos ouvir o Te Deum de Bruckner, uma peça que gosto muito, com os desejos que o próximo ano, seja menos doloroso.

27 de abril de 2009

Atentado falhado a Salazar



Casa Comum, 31 de Outubro de 1937

Cara amiga

Diz o povo que todos os diabos têm sorte e mais uma vez isso se confirmou, quando Oliveira Salazar escapou ileso dum atentado à bomba, organizado aqui em Lisboa, por militantes anarquistas, dizem. Falas-se no nome de Emídio Santana um militante histórico do anarco-sindicalismo, como o seu principal organizador.

Salazar, deslocava-se à capela particular do seu amigo Josué Trocado, na Avenida Barbosa du Bocage, em Lisboa, para assistir à missa, no dia 4 de Julho passado, quando a bomba explodiu à passagem do carro, destruindo-o, mas mantendo a salvo o alvo principal.

Confidenciou-me um amigo comum, que Santana lhe teria afirmado, "Se Salazar se sentia autorizado a comprometer o país no conflito espanhol, nós, cidadãos portugueses, na legitimidade dos nossos direitos, tínhamos o dever de nos opor, à vilania da agressão". Entre outras razões, é invocada a vilania do comportamento de Salazar no apoio às forças de Francisco Franco e as patrulhas militares que se faziam da raia portuguesa atacando os anti-fascistas em busca de refúgio, prendendo-os e entregando-os à morte.

As forças fascistóides nesse mesmo dia promoveram um desfile de homenagem ao chefe de Estado, cantando loas ao milagre de Nossa Senhora, que protege o seu povo, salvaguardando o vida do seu chefe. Dois dias depois, mais um enjoativo beija-mão dos militares, 1500 dizem, que foram a São Bento, ouvir o chefe discursar sob o tema "Portugal a Aliança Inglesa e a Guerra de Espanha.

Interessante é destacar a enorme adesão que a Guerra Civil Espanhola provocou, de vários artistas e intelectuais de todo o Mundo, pela causa republicana face ao ataque fascista de Francisco Franco.

Em Paris em Maio passado, em plena guerra civil, o governo republicano inaugurou o Pavilhão Espanhol da Exposição Internacional de Paris. A execução desse pavilhão, para além das dificuldades trazidas pela guerra e com poucos recursos disponíveis, serviria contudo de propaganda, para um país que lutava contra o fascismo.

Como se estivessem na frente de batalha, artistas espanhóis e estrangeiros não hesitaram em atender ao pedido de participação. A escultura de 18 metros de altura do artista Alberto Sánchez, O povo espanhol tem um caminho que conduz a uma estrela, marcava a frente do pavilhão. No saguão de entrada,destaca-se o quadro Guernica, painel em preto-e-branco pintado por Pablo Picasso, denunciando o bombardeio dessa cidade por aviões nazis, um dos maiores destaques daquele pavilhão.

Você já deve saber que, no dia 11 de Julho morreu George Gershwin, tempo para recordarmos a Rhapsody in blue, ou esse fantástico Summertime da Porgy and Bess.

E assim me despeço por hoje relembrando a sinfonia de Villa Lobos, chamada a Pátria.

14 de abril de 2009



Casa Comum, 30 de Abril de 1937

Amiga Severa

Nem chegámos a comentar a criação de mais uma instituição fascistóide, que o nosso ditador, resolveu autorizar, continuando a sua tendência, para copiar as instituições nazis.

Neste caso a comparação deve ser feita com os camisas castanhas, as SA, fundadas em 1921 por Hitler e que tanta importância tiveram, na sua tomada do poder.

Basicamente a Legião Portuguesa é uma milícia, sob a alçada dos Ministérios do Interior e da Guerra, para defender "o património espiritual" e "combater a ameaça comunista e o anarquismo", de acordo com a ideologia do Estado Novo.

Essa "coisa" foi fundada em Setembro do ano passado, por proposta do Botelho Moniz, e é presidida por João Pinto da Costa Leite (Lumbrales), sendo o general Casimiro Teles, acompanhado pelos capitães Correia Guedes e Silva Neves, respectivamente, chefe e sub-chefes do Estado Maior da Legião.

Há quem diga que o chefe supremo Salazar, não apreciou muito a ideia desta organização, que aglutina alguns nomes provenientes do Nacionalismo Lusitano, a Cruzada Nacional Nuno Álvares Pereira e a Liga 28 de Maio e antigos apoiantes de Sidónio Pais. Porém a presença do Lumbrales, terá sido uma imposição sua, seu amigo pessoal e da máxima confiança, trará algum descanso.

Vamos ver que ele por certo não deixará de tirar partido, desta organização, a favor dos intuitos do Estado Novo.

Para já foi vê-los desfilar garbosos, no comício festa do passado dia 28 de Maio.Talvez o exército tenha ficado com ciúmes.



No mês de Março, foi criada as Casas dos Pescadores, mais uma organização para cimentar a criação do estado corporativo, à semelhança do que aconteceu no mundo rural, com a existência das Casas do Povo, "estatizando "a economia primária, com o objectivo de fazer desaparecer as diferenças de interesse, entre patrões e empregados, tudo encantado na paz de senhor, debaixo do tecto das respectivas casas, retirando, no salazarento entendimento qualquer espécie de interesse aos sindicatos.

A sangrenta guerra civil aqui ao lado, teve mais uma cena trágica, o bombardeamento que Guernica, capital da província Basca, que a 26 de Abril de 1937 foi alvo por parte de aviões alemães (Legião Condor) por ordem do General Franco. Dos 7000 habitantes, 1654 foram mortos e 889 feridos.

Fica o horror duma pequena aldeia basca a ser bombardeada pela aviação nazi, aliada do nazi Franco.

Hoje resta-me a beleza de Mozart, para amenizar o trágico das atrocidades, vamos ouvir o maravilhoso Piano concerto nº26 em ré maior.






5 de abril de 2009

Antes morir de pie que vivir de rodillas

Casa Comum, 30 de Novembro de 1936

Cara Amiga

Mataram Garcia Lorca. Fuzilaram-no no dia 18 de Agosto, nos arredores de Granada. Ao que parece terá sido a sua irmã que, perante a ameaça das franquistas de prender ou executar de imediato o seu pai, revelou a localização de Frederico, supondo-o a salvo por se encontrar em casa de membros importantes da Falange de Granada, para onde ele tinha ido refugiar-se na casa do poeta Luís Rosales.

deixo-lhe um poema de Lorca, por certo não o mais representativo da sua obra, mas é um que gosto bastante.

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

A Espanha este ano perdeu além de Garcia Lorca, outro grande nome, este do bel canto. Falo da meio soprano Conchita Supervia, desaparecida prematuramente em Londres, como consequência do parto mal sucedido ,daquele que seria o seu segundo filho, primeiro do seu casamento com o industrial Benjamin Rubinstein com quem tinha casado em 1931. Tinha só 40 anos esta fantástica cantora, agora desaparecida.



A violência inaudita com que decorre a guerra civil espanhola, está a ser mais uma vez a demonstração da mentalidade de Salazar, que sob a capa da neutralidade, apoia claramente as tropas da falange franquista, pelo medo que tem do triunfo da forças da república.

Porém , por cá, muita gente se une para os apoiar, tendo sido informado que foi criada a Frente Popular Portuguesa onde se encontram, sob a direcção de Afonso Costa e Bernardino Machado, diferentes correntes políticas como o Partido Democrático, a Esquerda Radical, a Maçonaria, alguns anarco-sindicalistas, o Comité dos Sargentos de Terra e Mar, a União dos Combatentes da República Aliança Liberal (UCRAL) e personalidades como o Eng. Cunha Leal, o General Sá Cardoso, o Dr. António Sérgio (Seara Nova) ou o Prof. Bento de Jesus Caraça (PCP/Frente Popular).

Soube também que, no final do mês passado, desembarcavam na baía do Tarrafal (Ilha de Santiago,arquipélago de Cabo Verde) 157 presos antifascistas, que foram inaugurar o Campo de Concentração do Tarrafal, o campo da morte do Estado Novo

A primeira leva de presos, transportada no vapor Luanda, , foi constituída por comunistas, anarquistas, sindicalistas e anarco-sindicalistas, que tinham participado na greve geral de 18 de Janeiro de 1934, marinheiros dos navios de guerra Dão, Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias, que se tinham revoltado em 8 de Setembro de 1936 e dirigentes políticos que se opunham ao Estado Novo.

Muitos desses presos já tinham cumprido as penas a que foram condenados; outros ainda não tinham sido julgados; alguns nem culpa formada tinham, mas embarcaram porque "eram perniciosos e contrários ao interesse do Estado Novo".

Segundo me disseram, este primeiros "hóspedes", vão ter a tarefa de construir a própria prisão, estando alojados em barracas de lona. Foi decidido que seriam condenados a trabalhos forçados, quando muitos como já disse, estavam ali mas sem ter sequer sido julgados.

Acabo como comecei em título citando Dolores Ibarruri, é assim que muitos pensam em Espanha, em Lisboa ou no Tarrafal

O convite musical de hoje é para Mozart e o seu violino concerto nº24.

27 de março de 2009

A criação da Mocidade Portuguesa

Casa Comum, 31 de Agosto de 1936

Cara amiga Severa

Estávamos a adivinhar o desenlace a guerra civil ,aqui ao lado na vizinha Espanha. As últimas eleições que deram a vitória à esquerda unida, englobando todos os partidos tradicionais de esquerda, mais os anarquistas, os republicanos e os autonomistas da Esquerda catalã, os galegos e o Partido Nacional Basco. Essa coligação, venceu as eleições de Fevereiro passado, dominando 60% das Cortes, derrotando a Frente Nacional, composta pelos direitistas.

Esta Frente, perante tão ampla maioria. resolve pegar em armas, promoveu um levantamento militar liderado por um tal Francisco Franco, iniciando e escalada da revolta anti-democrática, exactamente pelo enclaves sob dominação espanhola em Marrocos.

Registemos a data de 18 de Julho de 1936, para assinalar o início deste conflito, que tudo indica, vai ser violentíssimo e que por certo atendendo ao facto de decorrer à nossa porta, vai por certo obrigar Salazar a tomar medidas, que de todo, vão ser desfavoráveis ao governo republicano espanhol, democraticamente eleito.

Conhecendo os seus princípios, basta sabermos que esse governo corresponde a uma unidade de esquerda, composta por socialistas e comunistas, para se perceber,que preferirá alinhar, pelas forças reaccionárias e fascistas da Frente Nacional, embora possa até, "jesuiticamente" nunca o admitir, mascarando-se de falsa equidistância.


O pequeno revés da morte em Cascais do general Sanjurgo, o principal dirigente da Frente Nacional, num desastre de avião, que partindo de Portugal o levaria para Espanha, no passado dia 20 de Julho, não fará por certo emperrar os planos de tomada de poder pela força da Frente Nacionalista.

Salazar continua preocupado com o alinhamento político dos militares, pelo que decidiu impor a sua autoridade, nomeando-se em acumulação sine die a pasta do Ministério da Guerra. Prova da sua desconfiança, não delegando em ninguém a coordenação daquele sector

A tendência para copiar as instituições fascistas alemães e italianas mantém-se, desta vez atingindo os mais jovens, criando a Organização Nacional Mocidade Portuguesa pelo Decreto-Lei n.º 26 611, de 19 de Maio de 1936, em cumprimento do disposto na Base XI da Lei n.º 1941, de 19 de Abril de 1936.

Pretendia abranger toda a juventude - escolar ou não - e atribuía-se, como fins, estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina, no culto dos deveres morais, cívicos e militares.

Os princípios inquestionáveis os objectivos, servir para criar a idolatria pelo chefe, bem expresso no significativo S, que todos ostentavam na fivela do cinto, bem como reveladora, também seja a saudação nazi do braço estendido, seguindo os padrões daquela ideologia.

A minha sugestão filmica de hoje, vai para o musical Show Boat de James Whale e em especial para uma passagem musical que acho vai gostar Old man River, cantado por Paul Robeson.

Quanto à musica vou convida-la para um serão mozartiano .


16 de março de 2009

Os infelizes tempos modernos

Casa Comum, 31 de Março de 1936

Caro amigo

Será possível que estejamos condenados a viver num mundo de ditadores ? Parece que os velhos tempos, a velha ideologia, se agarra aos argumentos mais violentos para assegurar a sua continuidade. Por certo que os principais alvos a abater passam pelos mesmos de sempre a inteligência e a cultura, os seus interpretes mais notáveis.

Foi o que aconteceu no Brasil e na ditadura do Getúlio Vargas, que em Março de 1936,mandou prender o grande escritor brasileiro Graciliano Ramos, acusado sem que a acusação fosse formalizada, de ter conspirado no levantamento comunista que houve em Novembro do ano passado. Foi preso em Maceió e enviado para o Recife, onde foi embarcado com destino ao Rio de Janeiro no navio, com outros 115 presos.

Mas mais do que a política eu lamento sempre o desaparecimento de pessoas da cultura, independentemente da sua cor ou da sua ideologia, sei que é um exagero dizer isto, mas é para mim tão importante a Arte e a cultura, que desculpo "qualquer coisinha", mesmo que isso possa reflectir um desvio em relação à minha maneira de pensar.

Quero dizer com isto que morreu em Bombaim no dia 18 de Janeiro, Rudyard Kipling, o prémio nobel da Literatura em 1907. Normalmente considera-se Kipling o principal representante da literatura imperialista, mas esta interpretação é superficial, se se aprofundar na sua obra , as preocupações com a relação entre os dominadores brancos e a população indígena, estão lá ainda que ele não seja exactamente um revolucionário

Para outros as suas principais obras Kim e O Livro das Terras Virgens, são convencionalmente consideradas obras infantis, mas que realmente não o são, moralistas ? por certo que sim, mas voltam sempre à realidade das relações sociais no Império Britânico, a sua grande preocupação.

Deixo a parte final do poema If (é muito extenso )

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minute se espraie em séculos fecundos...

Então, á ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...
-( tradução de Féliz Bermudes)

Também fui à estreia do último filme de Charlie Chaplin os Tempos Modernos, já foi ver ?



A mensagem musical de hoje é um retorno a Maurice Ravel e á sua Rapsódia espanhola.



9 de março de 2009

Morreu o Fernando Pessoa



Casa Comum, 29 de Dezembro de 1935

Cara amiga


A morte do Fernando Pessoa, no dia 30 de Setembro passado, foi algo que me marcou muito, embora tenha passado despercebido da maioria das pessoas, pois como você sabe, só no ano passado se publicou a Mansagem o único volume dos seus versos em português, publicado em vida, espero que como é habitual na nossa terra, os poetas e as pessoas de valor, só são homenageados depois de morrer, espero que Pessoa venha a ser reconhecido.

Estive presente em muitos dos cafés da nossa Lisboa, onde ele parava, muito embora também fossem largos os seus tempos de solidão. Tempo houve em que o ouvi defender o doutor Salazar, muito embora nos últimos anos, tivesse "mudado a agulha" por completo e muito bem, porque se existe algo mais contrário ao feitio de Pessoa, é o autoritarismo.

Ultimamente têm aparecido um poemas satíricos que confirmam o que eu disse


António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular...
António é António
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que isso tudo tem

Relativamente recente também é a sua paixão pela astrologia e pela reencarnação, como se prova por uma coisa que escreveu, sobre o desaparecimento do astrólogo inglês Aleister Crowley, que tinha vindo a Lisboa para o conhecer e que segundo a polícia terá sido assassinado.

Disse Pessoa a propósito disso O Crowley, que depois de suicidar-se passou a residir na Alemanha, escreveu-me há dias.

Eu sei que você adora o Fernando Pessoa, talvez depois me queira dar a sua opinião sobre ele, mas para já deixo-lhe um dos poemas dele que mais gosto.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansar-mo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.

O resto da nossa vida política actual é mais do mesmo, são tentativas de revolta como a do Rolão Preto, que regressara do exílio. Planeou-se um ataque ao quartel da Penha de França em Lisboa, mas a PVDE, que sabe tudo, gorou os intentos dos revolucionários, comandados por Mendes Norton, integrando militares e civis republicanos e nacionais-sindicalistas, que tinham como objectivo estratégico forçar o presidente Carmona demitir Oliveira Salazar. A consequência foram prisões e várias deportações.

No mês passado continuaram as prisões, sobretudo no interior do Partido Comunista, que embora na clandestinidade é a única força que continua a manter uma actividade regular e organizada da resistência à Ditadura Foi preso Bento Gonçalves o secretário-geral do PCP, que o era desde Abril de 1929, mais outras figuras do secretariado Júlio Fogaça e José de Sousa

E cá estamos de novo no fim de mais um ano, os votos são sempre os mesmos, que o próximo ano nos tragam o fim deste regime .

O meu convite musical para hoje é uma volta por Tchaikovsky vamos ouvir a Francesca de Rimini.


28 de fevereiro de 2009

Cantando espalharei por toda a parte


Casa Comum, 31 de Agosto de 1935

Cara amiga


Com a "rapidez" que caracteriza o governo de Salazar, que se move à velocidade média de um caracol, muito por força da sua mentalidade desconfiada, a isso se deveu a demora na inauguração oficial da Emissora Nacional o que finalmente aconteceu em 1 de Agosto passado, já que pelo menos desde 1933, se andaram a fazer emissões experimentais a partir de um emissor de Onda Média de 20 Kw instalado em Barcarena.


Contudo, desde 1930, data em que foi criada a EN, na dependência dos CTT, a Direcção dos Serviços Radioeléctricos autorizara a aquisição de dois emissores de Onda Média e Curta.


Portanto 5 anos para arrancar a emissora é tempo demasiado, mas finalmente lá avançou

"Cantando espalharei por toda a parte". a camoniana divisa da estação, cujo primeiro director artístico é o Dr.António Joyce, um distinto advogado lisboeta, mas formado em Direito em Coimbra e senhor de vasta cultura, com formação musical, tendo sido há uns anos atrás reorganizador do Orfeão Académico de Coimbra.

Duvido é que ele tenha paciência, para aturar a fiscalização que vai ter da parte do poder. ele que não sendo um homem de políticas, tem no seu currículo, ter secretariado o Presidente Teixeira Gomes, nos tempos da República, que ele por certo não esqueceu.


Os estúdios são na rua do Quelhas, não muito longe afinal do "escritório" do botas, que não dorme em serviço, afinal António Joyce é só o director artístico, provavelmente responsável pela qualidade da programação mas os chefes são de confiança, a Direcção é constituída pelo cap. Henrique Galvão, Eng. Manuel Bivar e Dr. Pires Cardoso, tudo gente da "casa".


Afinal o Dr.Salazar não se esquece de fomentar (direi controlar) a diversão, pois também criou há dias concretamente em 13 de Junho passado, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, conhecida como FNAT, que se propõe igualmente organizar os tempos livres dos trabalhadores.

Não sei o que isso irá dar, mas naturalmente que a preocupação de tudo estar sob controlo também o leva não deixar ao acaso as hora livres dos trabalhadores, eventualmente as mais perigosas, pensará ele.


Ficará então tudo sobre controlo, os dias de trabalho e os de folga também, é esta a essência do estado corporativo.

Só aparentemente escapará a vertente religiosa, mas a confiança depositada no amigo Cerejeira o cardeal de Portugal, que não deixará margem para outras fantasias, que ultrapassem o espírito beato, da máxima salazarista do "pobrezinho mas feliz, que vai à missa ao domingo".


Então e as suas férias ? julgo que em Setembro como habitualmente irá para a Praia das Maçãs. Embora francamente não saiba onde vc irá ficar, pelo menos desde o incêndio do Royal Hotel Bellevue, em 1921, que era poiso certo. Depois informe-me que eu apanho o eléctrico em Sintra e vou visita-la

Vamos ouvir os Prelúdios de Liszt ? Parece-me uma boa escolha neste tempo de Verão.

22 de fevereiro de 2009

As marionetas do senhor Reitor



Casa Comum, 31 de Maio de 1935

Caríssimo amigo

Ele há coisas que parecem de propósito, coincidências engraçadas que me ocorreram.

Olhe meu amigo, eu fui ao Tivoli, ver o filme do Leitão de Barros,
As pupilas do senhor reitor, baseado na obra do Júlio Dinis com Joaquim Almada (Reitor), Maria Matos (Senhora Joana), António Silva (João da Esquina), Leonor d’Eça (Margarida), Maria Paula (Clara), Oliveira Martins (Pedro), Paiva Raposo (Daniel) e Lino Ferreira (João Semana).

Vi toda a gente muito entusiasmada com este filme, mas eu não gostei muito, mal por mal preferi a Severa.

O curioso contudo, foi o título, quando vivemos num país, cada vez mais do senhor Reitor Salazar, onde paradoxalmente se colhe a sensação que o presidente da Republica Oscar Carmona, que foi "reeleito"(pela União Nacional) em Fevereiro, para um novo mandato, se perfila como mais uma marioneta ao dispor do ditador.

Os papéis estão completamente invertidos, deveria ser o cargo de presidente do Conselho de Ministros merecer a confiança do Presidente da República, mas aqui é ao contrário, é este que está refém do senhor Reitor.

Uma das coisas que incomoda Salazar é aquilo que denomina, ou o "porta voz" o deputados José Cabral o faz por ele, a existência das chamada "sociedades secretas", que nós sabemos muito bem ele querer atingir a Maçonaria. Onde se encontra concentrada a grande força da oposição, pelo menos a de característica mais intelectual. razão porque foram extintas por decreto de 21 de Maio passado, todas as associações secretas.

De certo modo, também engloba nesta proibição, outro tentáculo organizativo mais popular o Partido Comunista Português, que além de partido político, também é secreto e muito activo.

Em Itália já tinha acontecido, e Portugal não podia fugir à tradição fascista de se apropriar do símbolo que envolve o dia do Trabalhador a 1 de Maio, que é relevante para o movimento sindical e operário, naturalmente se a sua orientação, a sua chefia não for formada por "delegados do governo", mais um grupo de "pupilos do senhor Reitor", "secretariado" pela vigilância musculada da PVDE.

Sendo assim assinale-se que, tivemos este ano em grande estreia o Dia do Trabalho (uma nuance), com festejos oficiais elaborados pelo governo, incluindo um magnífico desfile de organismos corporativos, em Belém saudando o presidente da República .


Por hoje fico por aqui, mas deixo-lhe um postal musical diferente Sibelius um finlandês de sucesso que em 1923 estreou a sua 6ª Sinfonia em ré menor.

13 de fevereiro de 2009

A farsa eleitoral de 1934

Casa Comum, 23 de dezembro de 1934

Cara amiga

Fui ver o recém estreado filme do António Lopes Ribeiro, o Gado Bravo, e lhe digo que não gostei, estamos muito atrasados em matéria de cinema, bem seria de admirar que assim não fosse, afinal trata-se apenas da 3ª filme sonoro, mas em comparação com o que vimos passar nas nossas salas, vindo lá de fora, é uma tristeza.

Mal interpretado e cheio de imperfeições técnicas o que me espanta atendendo a que este filme tem o Raul de Carvalho como principal papel, que como se sabe é um excelente actor de teatro mas parece que há dificuldade em se adaptarem à técnica cinematográfica.

Num ano em que Frank Capra ganhou o Oscar com essa notável comédia It happened one night, com o Clark Gable e a Claudette Colbert, é só vermos as diferenças.

Já há um tempo que se adivinhava que Rolão Preto acabaria preso e assim aconteceu, ao mesmo tempo que ilegaliza o Movimento Nacional-Sindicalista, pondo termo ao um processo de dissidência interna, obriga-o a exilar-se bem como a Alberto de Monsaraz.

Salazar continua a organizar o seu estado autocrático corporativo, criou o Conselho Corporativo, que ele considera o órgão superior da organização corporativa nacional, tipico das organizações fascistas em geral. Presidido pelo presidente do Conselho de Ministros, tendo como membros permanentes os restantes ministros, dois professores de Direito Corporativo e membros eventuais, por convite.

Deveríamos ter ficado todos felizes, por terem acontecido, as primeiras eleições legislativas após o golpe de 28 de Maio, já lá vão 8 anos. Deveríamos de fosse possível, chamar aquilo eleições, mas o que aconteceu em 16 de Dezembro passado foi uma farsa. Apenas a União Nacional foi autorizada a concorrer elegendo naturalmente os 90 deputados do círculo nacional único.

O afastamento dos cadernos eleitorais de cidadãos que não interessavam e paradoxalmente os analfabetos, que o governo é em primeira análise o responsável por existirem, não contado com a total ausência de fiscalização quer do acto eleitoral, quer da própria contagem.

Afinal estavam inscritos nos cadernos 478 121 eleitores e votaram 377 792, apesar de tudo um número ridículo para o nosso País

Descobri esta coisa dum tal Almirante um cantor e radialista brasileiro, ligado às coisas do samba que com bom brasileiro que é e inventou esta redescoberta da História do Brasil.

Gostou? Então clica aqui e escuta mais!



10 de fevereiro de 2009

Salazar e Carmen Miranda duas estralas em ascensão



Casa Comum, 31 de Maio de 1934

Cara amiga

Você já ouviu falar nesta pequena, que nasceu no Marco de Canavezes em 9 de Fevereiro de 1909 que foi para o Brasil pequenita com o pai, por lá cresceu e tem uma voz magnifica e muito talento ?

Tem feito grande sucesso a partir de 1930, quando gravou a marcha "
Pra Você Gostar de Mim" . Antes do fim do ano, já era apontada pelo jornal O País como "a maior cantora brasileira", a nossa Carmem Miranda, afinal mudou de nacionalidade, também não admira, ela foi para lá com 1 ano.

A dois dias do 6º aniversário da revolução militar, Salazar reuniu o I Congresso da União Nacional, como nada é feito por acaso, pelo homem, esta-se mesmo a ver que procura a identificação do Estado Novo com aquela revolução, diluindo o papel dos militares, que a promoveram.

Salazar discursou na abertura e no encerramento do Congresso na Sociedade de Geografia, disse a economia liberal que nos deu o supercapitalismo, a concorrência desenfreada, a amoralidade económica, o trabalho mercadoria, o desemprego de milhões de homens, morreu já. Receio apenas que, em violenta reacção contra os seus excessos, vamos cair noutros que não seriam socialmente melhores.

Os habituais engraxadores também se destacaram, com os discursos habituais a ver quem consegue ser mais ridículo que o parceiro, talvez o prémio vá para o Lopes Mateus que sábia e lapalissianamente proclama "quem não é por Salazar é contra Salazar".

A oportunidade deste congresso, como já lhe disse, culmina um tempo de quezília com a hierarquia militar que pressionam Carmona, revoltados pela forma como Salazar monopoliza o protagonísmo político e propagandístico. Porém a força de salazar já é muito grande, que obriga Carmona a renovar-lhe publicamente a sua confiança, organizando uma homenagem pública que culmina numa manifestação espontânea da Praça do Comércio.

Vou terminar dizendo-lhe que se confirma a acusação que você me faz de andar apaixonado pelo Rachmaninov, mas que fazer quando aquele malandro, compõe coisa como esta Sinfonia nº2 ?

5 de fevereiro de 2009

A greve na Marinha Grande

Casa Comum, 31 de Janeiro de 1934

Cara Severa

Para muita gente que julga que somos uma gente amorfa e sem capacidade de luta, eis o desmentido, a reacção ao "pacote corporativo" que o Salazar inventou, para domesticar o povo em geral e os trabalhadores em particular.

Eis pois essa insurreição nacional em 18 de Janeiro de 1934 que resulta indirectamente de um longo processo de luta social e sindical , e como contestação à ofensiva corporativa contra os sindicatos livres, por força do recém-publicado “Estatuto do Trabalho Nacional e Organização dos Sindicatos Nacionais” em Setembro do ano passado.

A ideia de domesticar a luta de classes, poderá ter passado pela cabeça do coimbrão, mas ele não pode contrariar o curso da história, poderá só atrasa-lo pela força.

A colaboração das classes sociais com vista à harmonia do capital e do trabalho, sob a bandeira do “interesse nacional”, leia-se "interesse patronal", tem como objectivo o controlo dos sindicatos pelo Governo, que tem ainda poderes de fiscalização, intervenção e orientação de toda a actividade sindical e da contratação colectiva do trabalho.

Para a grande parte das organizações sindicais era impensável a dependência do Estado e a perda de autonomia e liberdade, bem como a colaboração entre patronato e classe operária, num equilíbrio extremamente desigual de forças.

Esta realidade acabou por gerar elos de união entre os sindicatos, a Confederação Geral do Trabalho (anarco-sindicalista), a Federação Autónoma Operária (socialista) a Comissão Intersindical (comunista) em torno do objectivo da greve geral revolucionária de 18 de Janeiro de 1934, a qual deveria ter irrompido em simultâneo com uma sublevação militar republicana ,que não chegou a acontecer, como sempre minha cara, em virtude da velha pecha nacional, chamada desorganização.

Registaram-se greves gerais de carácter pacífico em Almada, Barreiro, Sines, Silves, e manifestações operárias, mais ou menos um pouco violentas na Marinha Grande, Seixal, Alfeite, Cacilhas e Setúbal.

O centro industrial vidreiro da Marinha Grande foi onde a greve foi mais bem organizada e resistente sob a direcção dum tal José Gregório, um militante comunista, mas a força militar acabou por levar a melhor o número de detidos na Marinha Grande teria ascendido no mínimo, a 130 pessoas, por enquanto, e não auguro lhes aconteça nada de bom, porque segundo já ouvi dizer o Salazar, está a pensar mandar construir uma prisão, em Cabo Verde, donde escapar com vida, se tornará por certo impossível.

No passado dia 28, na sessão do "desagravo" no Teatro São Carlos quando da apresentação da Acção Escolar de Vanguarda, promovida por João Ameal e Manuel Múrias sob a Presidência de Carmona o ditador discursa referindo que o comunismo é a grande heresia da nossa idade.

Como a questão da greve geral, fosse uma jornada de luta pela implantação duma sociedade bolchevique e não estivesse em causa, como motivo primeiro as deploráveis condições de trabalho, que se apresentam aos trabalhadores, com horários de 12 horas por dias nas fábrica e o sol a sol nos campos, em em ambos os casos tudo em extrema precariedade.


A minha sugestão musical para hoje (até pode parecer que é por acaso), é a audição da abertura do Sonho duma noite de verão de Mendelssohn.

31 de janeiro de 2009

Politicamente só existe o que o povo sabe que existe.

Casa Comum, 29 de Dezembro de 1933

Prezada amiga

Li com muita atenção a sua última missiva e realmente surpreendeu-me o seu interesse mais aprofundado pelas coisas da política, mas realmente os tempos que correm deixam-nos de tal forma apreensivos com o futuro, que não podemos passar ao lado, como se não fosse nada connosco.

Veja bem como as coisas estão na Alemanha, desde que o ditador do bigodinho, o nazi Hitler assumiu o poder, (está quase a fazer um ano no próximo dia 30 de Janeiro), especialmente no que aos judeus diz respeito, tem vindo sempre em crescendo, primeiro o boicote contra os comerciantes, depois a decisão, que os cargos de funcionários públicos passassem a ser exclusivos dos arianos. Que ele definiu como a raça de eleição, altos e louros, a raça perfeita e os outros que o não sejam, tal como ele no grande grupo dos normais. Começando a esboçar a ideia, da existência dum sub-raça, os judeus, que pelos vistos para ele, valem menos que os seus cães.

Há dias o bardino, anunciou ao mundo uma nova aberração a esterilização em massa dos portadores de deficiências físicas e mentais para evitar defeitos hereditários, na busca da raça pura. Pelos vistos o pequeno nazi, julga-se Deus.

Admirou-me, entretanto que Pio XI tenha assinado uma Concordata com os nazis, muito embora sendo o representante do governo alemão nas negociações, o Ministro Franz von Papen, católico, que declarou aos jornalistas que as relações entre o Vaticano e o Reich eram tão amigas que em oito dias apenas a Concordata fora acertada até em seus mínimos pormenores.

Por conseguinte, em Julho de 1933 foi assinado um Acordo que assegurava que certas actividades da Igreja Católica no plano educacional, no da juventude e no de Encontros e Congressos ficavam garantidas por lei do Reich.

O nosso ditador continua a organizar tudo de acordo com as "normas ", criando um "Pacote Corporativo", envolvendo tudo o que no seu conceito, faria falta è "felicidade do povo!, o Estatuto do Trabalho Nacional, a criação de grémios para os patrões, os sindicatos nacionais e as casas do povo, para os trabalhadores. Tudo organizado a bem da Nação e da sua própria vontade.

. Para evitar maçadas desnecessárias aos trabalhadores, foi proibido o direito à greve e naturalmente ordenada a dissolução de todos os sindicatos livres se até ao dia 31 Dezembro não tiverem transformado os estatutos, de acordo com a "norma" e a autorização acessória do Subsecretário de Estado das Corporações.

Curiosa e inesperada cambalhota do Rolão Preto, o fundador nazi do nacional-sindicalismo, Movimento de tipo fascista, conhecido pelos camisas azuis, o Nacional-Sindicalismo foi uma organização que conseguiu algum apoio nas universidades e na oficialidade mais jovem do Exército português.

Devido a incidentes nas comemorações de 1933 do 28 de Maio em Braga, onde houve confrontos entre os nacional-sindicalistas e a polícia, ao discurso de Rolão Preto de 16 de Junho, numa sessão no São Carlos, claramente anti-salazarista, o jornal Revolução acabou por ser suspenso em 24 de Julho.

Restabelecido fugazmente em Setembro seguinte - saíram só três números - o Nacional-Sindicalismo dividiu-se em Novembro quando um grupo, o mais numeroso,liderado por Supico Pinto e José Cabral, decidiu apoiar Salazar e integrar-se na União Nacional, abandonando assim as ideias de independência, perante o novo regime defendidas por Rolão Preto e Alberto Monsaraz.

Francamente não esperava esta reviravolta Rolão Preto, e confesso não fazer ideia como irá acabar. Aliás não precisamos de saber nada, pois como diz o chefe Salazar politicamente só existe, o que o público sabe que existe.

Você sabe o quanto eu gosto de pianos-concerto, para varia hoje sugiro o de Aaron Copland, um contemporâneo que estreou este seu Piano concerto em 1927

25 de janeiro de 2009

Normas e ministros da propaganda


Casa Comum, 15 de Novembro de 1933

Meu amigo

Fui há dias ao São Luís ver a Canção de Lisboa, um filme do Continelli Telmo, como o Vasco Santana e a Beatriz Costa e o António Silva,uma comédia muito viva e bem disposta, que gostei muito, até porque suponho ser uma inovação entre nós.

Li com muita atenção o que vc me disse sobre a nova constituição e para que não diga que eu não me ligo à política, veja bem que até li alguns artigos.

A impressão que fico, é que as liberdades das pessoas o seu bem mais precioso, está cada vez mais ameaçado. Veja por exemplo que o artº 8º da Constituição diz defender"
a liberdade de pensamento sob qualquer forma", mas no n.º 20 refere-se que "leis especiais regularão o exercício da liberdade de pensamento".

Claro que não se trata dum simples erro, é premeditado, porque ao mesmo tempo que se publica a Constituição se estabelece um regime de Censura Prévia onde abertamente se diz que a função da censura será "
impedir a perversão da opinião pública na sua função de força social e deverá ser exercida por forma a defendê-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum, e a evitar que sejam atacados os princípios fundamentais da organização da sociedade" .

Está tudo dito é o governo que reserva para si os critérios do que seria a verdade, a justiça, a moral, etc.

Então com este exemplos, sobre a vida política em Portugal, realmente mais vale dedicar-mo-nos ao que vale a pena a Arte.

Soube que vão criar o Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, para perseverar as obras do nosso pintor, primeiro presidente da SNBA falecido recentemente.

Bastante desiludida fiquei, foi com o Almada Negreiros, por ter aceite criar o cartaz "Votai a Constituição".

Não esperava que cedesse ao convite do António Ferro do SPN-Secretariado da Propaganda Nacional, é uma cedência ao propagandista do Salazar. Como vê meu caro Luís, posso não ser militante anarquista, mas há coisas, por mais insignificantes que possam parecer, das quais não abdico.


Ainda a propósito de arte e liberdades ou falta delas no dia 29 de março, a direcção da UFA a produtora alemã de filmes, demitiu funcionários judeus, causando o segundo grande êxodo de artistas alemães para o exterior.

"A arte é livre e deve continuar livre, mas tem de se adaptar a certas normas!" Esta frase foi dita pelo ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels.

Curiosa esta analogia entre respeito pelas normas e ministros da propaganda do governo nazi de Hitler e governo "democrático" de Salazar.

Hoje convido-o a ouvir o Piano concerto nº 2 de Bela Bartok que estreou este ano em Frankfurt, outro artista que me disseram já deixou a Alemanha, provavelmente por causa das "normas".



19 de janeiro de 2009

A constituição de 1933

Casa Comum, 30 de Abril de 1933

Cara amiga

Hoje não é dia das mentiras, mas se fosse era apropriado para falarmos da nossa nova Constituição, que o Estado Novo, "fez aprovar", para se legitimizar. Começa a mentira pela forma cautelosa como o governo não quis perder o plebiscito realizado, para aprovar o documento. De forma matreira e bem à sua maneira, Salazar fez aprovar em Fevereiro uma lei em que se estabelece que, por comodidade, no plebiscito, as abstenções contarão como votos positivos.

Foi Salazar a jogar a back se me permite a "foot-bolada", mas não foi preciso, o plebiscito constitucional, deu-lhe uma larga vantagem em 11 de Abril passado 1 213 159 votantes. Contra apenas 5 955. Abstenções 487 364 e 60% de votos favoráveis, não era portanto necessário o artifício.

Contudo, apesar de tudo a constituição promete, sobretudo em matéria do que se pode chamar genericamente, direitos, liberdades e garantias, alguma coisa, que vamos ver se a Ditadura arranja forma de os negar

O Presidente da República é consagrado como o primeiro poder dentro do Estado, detendo o poder executivo, que partilha com o governo; o poder legislativo pertence essencialmente à Assembleia Nacional.

Apesar de tudo na Constituição vigora a subordinação do Presidente do Conselho ao Presidente da República, a questão é pensar que Oscar Carmona não se atreverá nunca a demitir Oliveira Salazar.

O processo eleitoral, demonstrou que existem duas ou três forças, blocos que esgrimem com armas desiguais, a ditadura no poder para durar por certo, os comunistas, anarquistas e outros correntes revolucionárias, "habitando" algumas franjas do débil tecido proletário português e os republicanos, largo grupo com várias tendências, defendendo os velhos princípios da liberdade recolhidos da 1ª Republica.

Vendo-se o caso de Vicente de Freitas, que publicou no O Século uma exposição contra o projecto de Constituição de Salazar. Considerando que dentro do 28 Maio, além da corrente nacionalista há outra francamente republicana, que, sem nenhuma maneira defender o regresso à desordem política criada pela Constituição de 1911, é francamente liberal e democrática. Condena a UN como partido se um dia ela viesse de facto a ser a única organização política permitida em Portugal, os seus aderentes constituiriam uma casta privilegiada que pretenderia confundir-se com o próprio Estado e se julgaria no direito de reclamar todas as benesses e situações ... a primeira Assembleia Nacional a eleger será de facto nomeada na sede da União Nacional e no Ministério do Interior e representará, não a vontade da nação, mas a vontade do Governo ... se o Estado tem realmente de ser forte, o pensamento não pode deixar de ser livre.

Salazar reagiu de imediato e demitiu Vicente de Freitas de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Este é o verdadeiro carácter de Salazar, Vicente de Freitas um republicano conservador e inspirador da União Nacional. Entre vários cargos políticos foi ministro do interior e presidente do ministério de 18 de Abril de 1928 a 8 de Julho de 1929, foi demitido de imediato logo que ousou discordar do chefe supremo, imagine-se o que acontece a quem estiver mais distante politicamente.

Assim (des)andamos nós

Por hoje fico-me a ouvir pela janela o Adagio em sol menor de Albinoni que o nosso vizinho do terceiro esquerdo, felizmente não se cansa de tocar no seu gramofone.

Créditos:prof. Adelino Maltez

15 de janeiro de 2009

A União Nacional deles

Casa Comum, 31 de Dezembro de 1932

Cara amiga

Desta vez não deixo as notas musicais para o fim, já que a novidade musical é de peso, pelo menos para si, Ravel estreou no dia 14 de Janeiro um Piano Concerto em sól, realmente magnífico, na linha bem moderna da sua música.

O Notícias Ilustrado descobriu há dias extraordinárias semelhanças entre uma figura dos painéis de Nuno Gonçalves, pintados no sec XV e o Dr.Salazar, não faltando por certo entre algumas mentes mais "salazareiras", encontrarem ai alguma premonição divina.

Os adeptos do reviralho, os nossos como gosto de dizer, também exageram, nas teses contrárias sugerindo algum retoque premeditado no quadro, o que é manifestamente destemperado já que o restauro da obra foi acabada em 1910, por mestre Luciano Freire, o que é absurdo, pois nessa época o jovem António estava ainda longe de deter qualquer notoriedade.

Eis em pleno funcionamento a recém criada União Nacional, com o seu núcleo duro bem definido pela Comissão Central (Salazar, Bissaya Barreto, Manuel Rodrigues, Lopes Mateus, Armindo Monteiro) e a Junta Consultiva (Passos e Sousa, João Amaral, Pinto Coelho, Caetano, Linhares de Lima, Alberto dos Reis).

A declaração de princípios fê-la o chefe, no discurso de tomada de posse, com a assassinato da democracia em papel passado e nas seguintes palavras "Fora da UN não reconhecemos partidos. Dentro dela não admitimos grupos… nós temos uma doutrina e somos uma força.

António Ferro é o chefe do Secretariado de Propaganda Nacional, o tambor de ressonância de Salazar, que entrevista o ditador cujo o trabaho começa a ser publicadas no Diário de Notícias e posso afirmar, sem receio de errar que estamos em presença do "encenador do regime", Ferro não transcreve o que Salazar diz,"retém as ideias e encena-as", a paisagem de fundo, como vc sabe é de uma Lisboa pobre mas alegre, as pessoas não têm gramofones, (nós somos a excepção e por esse motivo deveríamos ser infelizes ) mas com canário na gaiola".

Bem estamos a acabar mais um ano, em que lhe faço os votos de sempre par si e para o País, mas acabo com uma nota diferente, sobre a minha aposta para o filme que irá vencer o Óscar deste ano, não posso esquecer-me da Greta Garbo e do seu trabalho no Grande Hotel.

11 de janeiro de 2009

A morte de D.Manuel II

Casa Comum, 31 de Julho de 1932

Minha prezada amiga

A sua conhecida simpatia pela causa monárquica, faz-me endereçar-lhe os meus sinceros votos de pesar pela morte no passado dia 2 de D.Manuel II, em Londres onde se encontrava exilado.

A notícia é que D.Manuel, tinha ido no dia anterior a Wimbledon assistir a um jogo de ténis, organizado pelo Old England Club, de que aliás era sócio. Ter-se-á sentido mal à saída, queixando-se da garganta.

No dia seguinte, o médico, proibiu a sua saída de casa, que lhe causou grande pesar, já que no dia seguinte havia o casamento da filha do seu fiel servidor e amigo António Pereira.

O certo é que não melhorou, foi sempre piorando e por certo por muita incúria do seu médico assistente, acabou por falecer com um edema da glote, que acabaria por o sufocar, quando um simples abertura exterior na garganta, ter-lhe-ia por certo salvo a vida.

De um modo geral, a notícia foi recebida com alguma consternação, até porque a figura de D.Manuel de Bragança, não era antipática e mesmo da parte dos mais arreigados republicanos, havia a noção óbvia que ele não era nem nunca foi o responsável pelos erros da monarquia.

Na sua residência em Fulwell Park, velou-se o corpo, do último rei de Portugal, que faleceu com 42 anos nas circunstâncias infelizes, que lhe descrevi.Para o funeral, além de sua mãe, chegaram de Portugal, muitos dos seus amigos

O cortejo fúnebre, teve a presença de todos eles e claro de sua mãe D.Amélia de Orleans e da sua viúva D.Augusta Vitória, dirigindo-se para Weybridge, para o jazigo dos condes de Paris, na cripta da igreja de São Carlos Barromeu, onde ficou sepultado a aguardar o regresso a Portugal.

Só no dia seguinte a urna seria transportada para Westminster, para serem rezadas as solenes exéquias com a presença das principais casas reais europeias.

Soube-se no passado dia 10 que o Salazar, mandou publicar uma nota oficiosa, onde diz que "atendendo ao desejo manifestado pelo sr. D.Manuel, que o seus restos mortais repousasse na Pátria e do patriotismo que sempre deu provas, resolveu-se tomar a iniciativa da sua transladação, fixando-se oportunamente o programa das cerimónias a realizar".

Tanto quanto está anunciado, chegará no próximo dia 2 de Agosto, o cruzador Concord, que a Grã-Bretanha cederá. para transportar os seus restos mortais, que ficarão em câmara ardente na nave central da Estação Sul e Sueste, seguindo depois para o Mosteiro de São Vicente de Fora, onde ficará sepultado junto a seu Pai e irmão.

A nota musical de hoje é o Stabat Mater de Rossini

Temas e Instituições