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28 de fevereiro de 2009

Cantando espalharei por toda a parte


Casa Comum, 31 de Agosto de 1935

Cara amiga


Com a "rapidez" que caracteriza o governo de Salazar, que se move à velocidade média de um caracol, muito por força da sua mentalidade desconfiada, a isso se deveu a demora na inauguração oficial da Emissora Nacional o que finalmente aconteceu em 1 de Agosto passado, já que pelo menos desde 1933, se andaram a fazer emissões experimentais a partir de um emissor de Onda Média de 20 Kw instalado em Barcarena.


Contudo, desde 1930, data em que foi criada a EN, na dependência dos CTT, a Direcção dos Serviços Radioeléctricos autorizara a aquisição de dois emissores de Onda Média e Curta.


Portanto 5 anos para arrancar a emissora é tempo demasiado, mas finalmente lá avançou

"Cantando espalharei por toda a parte". a camoniana divisa da estação, cujo primeiro director artístico é o Dr.António Joyce, um distinto advogado lisboeta, mas formado em Direito em Coimbra e senhor de vasta cultura, com formação musical, tendo sido há uns anos atrás reorganizador do Orfeão Académico de Coimbra.

Duvido é que ele tenha paciência, para aturar a fiscalização que vai ter da parte do poder. ele que não sendo um homem de políticas, tem no seu currículo, ter secretariado o Presidente Teixeira Gomes, nos tempos da República, que ele por certo não esqueceu.


Os estúdios são na rua do Quelhas, não muito longe afinal do "escritório" do botas, que não dorme em serviço, afinal António Joyce é só o director artístico, provavelmente responsável pela qualidade da programação mas os chefes são de confiança, a Direcção é constituída pelo cap. Henrique Galvão, Eng. Manuel Bivar e Dr. Pires Cardoso, tudo gente da "casa".


Afinal o Dr.Salazar não se esquece de fomentar (direi controlar) a diversão, pois também criou há dias concretamente em 13 de Junho passado, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, conhecida como FNAT, que se propõe igualmente organizar os tempos livres dos trabalhadores.

Não sei o que isso irá dar, mas naturalmente que a preocupação de tudo estar sob controlo também o leva não deixar ao acaso as hora livres dos trabalhadores, eventualmente as mais perigosas, pensará ele.


Ficará então tudo sobre controlo, os dias de trabalho e os de folga também, é esta a essência do estado corporativo.

Só aparentemente escapará a vertente religiosa, mas a confiança depositada no amigo Cerejeira o cardeal de Portugal, que não deixará margem para outras fantasias, que ultrapassem o espírito beato, da máxima salazarista do "pobrezinho mas feliz, que vai à missa ao domingo".


Então e as suas férias ? julgo que em Setembro como habitualmente irá para a Praia das Maçãs. Embora francamente não saiba onde vc irá ficar, pelo menos desde o incêndio do Royal Hotel Bellevue, em 1921, que era poiso certo. Depois informe-me que eu apanho o eléctrico em Sintra e vou visita-la

Vamos ouvir os Prelúdios de Liszt ? Parece-me uma boa escolha neste tempo de Verão.

22 de fevereiro de 2009

As marionetas do senhor Reitor



Casa Comum, 31 de Maio de 1935

Caríssimo amigo

Ele há coisas que parecem de propósito, coincidências engraçadas que me ocorreram.

Olhe meu amigo, eu fui ao Tivoli, ver o filme do Leitão de Barros,
As pupilas do senhor reitor, baseado na obra do Júlio Dinis com Joaquim Almada (Reitor), Maria Matos (Senhora Joana), António Silva (João da Esquina), Leonor d’Eça (Margarida), Maria Paula (Clara), Oliveira Martins (Pedro), Paiva Raposo (Daniel) e Lino Ferreira (João Semana).

Vi toda a gente muito entusiasmada com este filme, mas eu não gostei muito, mal por mal preferi a Severa.

O curioso contudo, foi o título, quando vivemos num país, cada vez mais do senhor Reitor Salazar, onde paradoxalmente se colhe a sensação que o presidente da Republica Oscar Carmona, que foi "reeleito"(pela União Nacional) em Fevereiro, para um novo mandato, se perfila como mais uma marioneta ao dispor do ditador.

Os papéis estão completamente invertidos, deveria ser o cargo de presidente do Conselho de Ministros merecer a confiança do Presidente da República, mas aqui é ao contrário, é este que está refém do senhor Reitor.

Uma das coisas que incomoda Salazar é aquilo que denomina, ou o "porta voz" o deputados José Cabral o faz por ele, a existência das chamada "sociedades secretas", que nós sabemos muito bem ele querer atingir a Maçonaria. Onde se encontra concentrada a grande força da oposição, pelo menos a de característica mais intelectual. razão porque foram extintas por decreto de 21 de Maio passado, todas as associações secretas.

De certo modo, também engloba nesta proibição, outro tentáculo organizativo mais popular o Partido Comunista Português, que além de partido político, também é secreto e muito activo.

Em Itália já tinha acontecido, e Portugal não podia fugir à tradição fascista de se apropriar do símbolo que envolve o dia do Trabalhador a 1 de Maio, que é relevante para o movimento sindical e operário, naturalmente se a sua orientação, a sua chefia não for formada por "delegados do governo", mais um grupo de "pupilos do senhor Reitor", "secretariado" pela vigilância musculada da PVDE.

Sendo assim assinale-se que, tivemos este ano em grande estreia o Dia do Trabalho (uma nuance), com festejos oficiais elaborados pelo governo, incluindo um magnífico desfile de organismos corporativos, em Belém saudando o presidente da República .


Por hoje fico por aqui, mas deixo-lhe um postal musical diferente Sibelius um finlandês de sucesso que em 1923 estreou a sua 6ª Sinfonia em ré menor.

13 de fevereiro de 2009

A farsa eleitoral de 1934

Casa Comum, 23 de dezembro de 1934

Cara amiga

Fui ver o recém estreado filme do António Lopes Ribeiro, o Gado Bravo, e lhe digo que não gostei, estamos muito atrasados em matéria de cinema, bem seria de admirar que assim não fosse, afinal trata-se apenas da 3ª filme sonoro, mas em comparação com o que vimos passar nas nossas salas, vindo lá de fora, é uma tristeza.

Mal interpretado e cheio de imperfeições técnicas o que me espanta atendendo a que este filme tem o Raul de Carvalho como principal papel, que como se sabe é um excelente actor de teatro mas parece que há dificuldade em se adaptarem à técnica cinematográfica.

Num ano em que Frank Capra ganhou o Oscar com essa notável comédia It happened one night, com o Clark Gable e a Claudette Colbert, é só vermos as diferenças.

Já há um tempo que se adivinhava que Rolão Preto acabaria preso e assim aconteceu, ao mesmo tempo que ilegaliza o Movimento Nacional-Sindicalista, pondo termo ao um processo de dissidência interna, obriga-o a exilar-se bem como a Alberto de Monsaraz.

Salazar continua a organizar o seu estado autocrático corporativo, criou o Conselho Corporativo, que ele considera o órgão superior da organização corporativa nacional, tipico das organizações fascistas em geral. Presidido pelo presidente do Conselho de Ministros, tendo como membros permanentes os restantes ministros, dois professores de Direito Corporativo e membros eventuais, por convite.

Deveríamos ter ficado todos felizes, por terem acontecido, as primeiras eleições legislativas após o golpe de 28 de Maio, já lá vão 8 anos. Deveríamos de fosse possível, chamar aquilo eleições, mas o que aconteceu em 16 de Dezembro passado foi uma farsa. Apenas a União Nacional foi autorizada a concorrer elegendo naturalmente os 90 deputados do círculo nacional único.

O afastamento dos cadernos eleitorais de cidadãos que não interessavam e paradoxalmente os analfabetos, que o governo é em primeira análise o responsável por existirem, não contado com a total ausência de fiscalização quer do acto eleitoral, quer da própria contagem.

Afinal estavam inscritos nos cadernos 478 121 eleitores e votaram 377 792, apesar de tudo um número ridículo para o nosso País

Descobri esta coisa dum tal Almirante um cantor e radialista brasileiro, ligado às coisas do samba que com bom brasileiro que é e inventou esta redescoberta da História do Brasil.

Gostou? Então clica aqui e escuta mais!



10 de fevereiro de 2009

Salazar e Carmen Miranda duas estralas em ascensão



Casa Comum, 31 de Maio de 1934

Cara amiga

Você já ouviu falar nesta pequena, que nasceu no Marco de Canavezes em 9 de Fevereiro de 1909 que foi para o Brasil pequenita com o pai, por lá cresceu e tem uma voz magnifica e muito talento ?

Tem feito grande sucesso a partir de 1930, quando gravou a marcha "
Pra Você Gostar de Mim" . Antes do fim do ano, já era apontada pelo jornal O País como "a maior cantora brasileira", a nossa Carmem Miranda, afinal mudou de nacionalidade, também não admira, ela foi para lá com 1 ano.

A dois dias do 6º aniversário da revolução militar, Salazar reuniu o I Congresso da União Nacional, como nada é feito por acaso, pelo homem, esta-se mesmo a ver que procura a identificação do Estado Novo com aquela revolução, diluindo o papel dos militares, que a promoveram.

Salazar discursou na abertura e no encerramento do Congresso na Sociedade de Geografia, disse a economia liberal que nos deu o supercapitalismo, a concorrência desenfreada, a amoralidade económica, o trabalho mercadoria, o desemprego de milhões de homens, morreu já. Receio apenas que, em violenta reacção contra os seus excessos, vamos cair noutros que não seriam socialmente melhores.

Os habituais engraxadores também se destacaram, com os discursos habituais a ver quem consegue ser mais ridículo que o parceiro, talvez o prémio vá para o Lopes Mateus que sábia e lapalissianamente proclama "quem não é por Salazar é contra Salazar".

A oportunidade deste congresso, como já lhe disse, culmina um tempo de quezília com a hierarquia militar que pressionam Carmona, revoltados pela forma como Salazar monopoliza o protagonísmo político e propagandístico. Porém a força de salazar já é muito grande, que obriga Carmona a renovar-lhe publicamente a sua confiança, organizando uma homenagem pública que culmina numa manifestação espontânea da Praça do Comércio.

Vou terminar dizendo-lhe que se confirma a acusação que você me faz de andar apaixonado pelo Rachmaninov, mas que fazer quando aquele malandro, compõe coisa como esta Sinfonia nº2 ?

5 de fevereiro de 2009

A greve na Marinha Grande

Casa Comum, 31 de Janeiro de 1934

Cara Severa

Para muita gente que julga que somos uma gente amorfa e sem capacidade de luta, eis o desmentido, a reacção ao "pacote corporativo" que o Salazar inventou, para domesticar o povo em geral e os trabalhadores em particular.

Eis pois essa insurreição nacional em 18 de Janeiro de 1934 que resulta indirectamente de um longo processo de luta social e sindical , e como contestação à ofensiva corporativa contra os sindicatos livres, por força do recém-publicado “Estatuto do Trabalho Nacional e Organização dos Sindicatos Nacionais” em Setembro do ano passado.

A ideia de domesticar a luta de classes, poderá ter passado pela cabeça do coimbrão, mas ele não pode contrariar o curso da história, poderá só atrasa-lo pela força.

A colaboração das classes sociais com vista à harmonia do capital e do trabalho, sob a bandeira do “interesse nacional”, leia-se "interesse patronal", tem como objectivo o controlo dos sindicatos pelo Governo, que tem ainda poderes de fiscalização, intervenção e orientação de toda a actividade sindical e da contratação colectiva do trabalho.

Para a grande parte das organizações sindicais era impensável a dependência do Estado e a perda de autonomia e liberdade, bem como a colaboração entre patronato e classe operária, num equilíbrio extremamente desigual de forças.

Esta realidade acabou por gerar elos de união entre os sindicatos, a Confederação Geral do Trabalho (anarco-sindicalista), a Federação Autónoma Operária (socialista) a Comissão Intersindical (comunista) em torno do objectivo da greve geral revolucionária de 18 de Janeiro de 1934, a qual deveria ter irrompido em simultâneo com uma sublevação militar republicana ,que não chegou a acontecer, como sempre minha cara, em virtude da velha pecha nacional, chamada desorganização.

Registaram-se greves gerais de carácter pacífico em Almada, Barreiro, Sines, Silves, e manifestações operárias, mais ou menos um pouco violentas na Marinha Grande, Seixal, Alfeite, Cacilhas e Setúbal.

O centro industrial vidreiro da Marinha Grande foi onde a greve foi mais bem organizada e resistente sob a direcção dum tal José Gregório, um militante comunista, mas a força militar acabou por levar a melhor o número de detidos na Marinha Grande teria ascendido no mínimo, a 130 pessoas, por enquanto, e não auguro lhes aconteça nada de bom, porque segundo já ouvi dizer o Salazar, está a pensar mandar construir uma prisão, em Cabo Verde, donde escapar com vida, se tornará por certo impossível.

No passado dia 28, na sessão do "desagravo" no Teatro São Carlos quando da apresentação da Acção Escolar de Vanguarda, promovida por João Ameal e Manuel Múrias sob a Presidência de Carmona o ditador discursa referindo que o comunismo é a grande heresia da nossa idade.

Como a questão da greve geral, fosse uma jornada de luta pela implantação duma sociedade bolchevique e não estivesse em causa, como motivo primeiro as deploráveis condições de trabalho, que se apresentam aos trabalhadores, com horários de 12 horas por dias nas fábrica e o sol a sol nos campos, em em ambos os casos tudo em extrema precariedade.


A minha sugestão musical para hoje (até pode parecer que é por acaso), é a audição da abertura do Sonho duma noite de verão de Mendelssohn.

31 de janeiro de 2009

Politicamente só existe o que o povo sabe que existe.

Casa Comum, 29 de Dezembro de 1933

Prezada amiga

Li com muita atenção a sua última missiva e realmente surpreendeu-me o seu interesse mais aprofundado pelas coisas da política, mas realmente os tempos que correm deixam-nos de tal forma apreensivos com o futuro, que não podemos passar ao lado, como se não fosse nada connosco.

Veja bem como as coisas estão na Alemanha, desde que o ditador do bigodinho, o nazi Hitler assumiu o poder, (está quase a fazer um ano no próximo dia 30 de Janeiro), especialmente no que aos judeus diz respeito, tem vindo sempre em crescendo, primeiro o boicote contra os comerciantes, depois a decisão, que os cargos de funcionários públicos passassem a ser exclusivos dos arianos. Que ele definiu como a raça de eleição, altos e louros, a raça perfeita e os outros que o não sejam, tal como ele no grande grupo dos normais. Começando a esboçar a ideia, da existência dum sub-raça, os judeus, que pelos vistos para ele, valem menos que os seus cães.

Há dias o bardino, anunciou ao mundo uma nova aberração a esterilização em massa dos portadores de deficiências físicas e mentais para evitar defeitos hereditários, na busca da raça pura. Pelos vistos o pequeno nazi, julga-se Deus.

Admirou-me, entretanto que Pio XI tenha assinado uma Concordata com os nazis, muito embora sendo o representante do governo alemão nas negociações, o Ministro Franz von Papen, católico, que declarou aos jornalistas que as relações entre o Vaticano e o Reich eram tão amigas que em oito dias apenas a Concordata fora acertada até em seus mínimos pormenores.

Por conseguinte, em Julho de 1933 foi assinado um Acordo que assegurava que certas actividades da Igreja Católica no plano educacional, no da juventude e no de Encontros e Congressos ficavam garantidas por lei do Reich.

O nosso ditador continua a organizar tudo de acordo com as "normas ", criando um "Pacote Corporativo", envolvendo tudo o que no seu conceito, faria falta è "felicidade do povo!, o Estatuto do Trabalho Nacional, a criação de grémios para os patrões, os sindicatos nacionais e as casas do povo, para os trabalhadores. Tudo organizado a bem da Nação e da sua própria vontade.

. Para evitar maçadas desnecessárias aos trabalhadores, foi proibido o direito à greve e naturalmente ordenada a dissolução de todos os sindicatos livres se até ao dia 31 Dezembro não tiverem transformado os estatutos, de acordo com a "norma" e a autorização acessória do Subsecretário de Estado das Corporações.

Curiosa e inesperada cambalhota do Rolão Preto, o fundador nazi do nacional-sindicalismo, Movimento de tipo fascista, conhecido pelos camisas azuis, o Nacional-Sindicalismo foi uma organização que conseguiu algum apoio nas universidades e na oficialidade mais jovem do Exército português.

Devido a incidentes nas comemorações de 1933 do 28 de Maio em Braga, onde houve confrontos entre os nacional-sindicalistas e a polícia, ao discurso de Rolão Preto de 16 de Junho, numa sessão no São Carlos, claramente anti-salazarista, o jornal Revolução acabou por ser suspenso em 24 de Julho.

Restabelecido fugazmente em Setembro seguinte - saíram só três números - o Nacional-Sindicalismo dividiu-se em Novembro quando um grupo, o mais numeroso,liderado por Supico Pinto e José Cabral, decidiu apoiar Salazar e integrar-se na União Nacional, abandonando assim as ideias de independência, perante o novo regime defendidas por Rolão Preto e Alberto Monsaraz.

Francamente não esperava esta reviravolta Rolão Preto, e confesso não fazer ideia como irá acabar. Aliás não precisamos de saber nada, pois como diz o chefe Salazar politicamente só existe, o que o público sabe que existe.

Você sabe o quanto eu gosto de pianos-concerto, para varia hoje sugiro o de Aaron Copland, um contemporâneo que estreou este seu Piano concerto em 1927

25 de janeiro de 2009

Normas e ministros da propaganda


Casa Comum, 15 de Novembro de 1933

Meu amigo

Fui há dias ao São Luís ver a Canção de Lisboa, um filme do Continelli Telmo, como o Vasco Santana e a Beatriz Costa e o António Silva,uma comédia muito viva e bem disposta, que gostei muito, até porque suponho ser uma inovação entre nós.

Li com muita atenção o que vc me disse sobre a nova constituição e para que não diga que eu não me ligo à política, veja bem que até li alguns artigos.

A impressão que fico, é que as liberdades das pessoas o seu bem mais precioso, está cada vez mais ameaçado. Veja por exemplo que o artº 8º da Constituição diz defender"
a liberdade de pensamento sob qualquer forma", mas no n.º 20 refere-se que "leis especiais regularão o exercício da liberdade de pensamento".

Claro que não se trata dum simples erro, é premeditado, porque ao mesmo tempo que se publica a Constituição se estabelece um regime de Censura Prévia onde abertamente se diz que a função da censura será "
impedir a perversão da opinião pública na sua função de força social e deverá ser exercida por forma a defendê-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum, e a evitar que sejam atacados os princípios fundamentais da organização da sociedade" .

Está tudo dito é o governo que reserva para si os critérios do que seria a verdade, a justiça, a moral, etc.

Então com este exemplos, sobre a vida política em Portugal, realmente mais vale dedicar-mo-nos ao que vale a pena a Arte.

Soube que vão criar o Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, para perseverar as obras do nosso pintor, primeiro presidente da SNBA falecido recentemente.

Bastante desiludida fiquei, foi com o Almada Negreiros, por ter aceite criar o cartaz "Votai a Constituição".

Não esperava que cedesse ao convite do António Ferro do SPN-Secretariado da Propaganda Nacional, é uma cedência ao propagandista do Salazar. Como vê meu caro Luís, posso não ser militante anarquista, mas há coisas, por mais insignificantes que possam parecer, das quais não abdico.


Ainda a propósito de arte e liberdades ou falta delas no dia 29 de março, a direcção da UFA a produtora alemã de filmes, demitiu funcionários judeus, causando o segundo grande êxodo de artistas alemães para o exterior.

"A arte é livre e deve continuar livre, mas tem de se adaptar a certas normas!" Esta frase foi dita pelo ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels.

Curiosa esta analogia entre respeito pelas normas e ministros da propaganda do governo nazi de Hitler e governo "democrático" de Salazar.

Hoje convido-o a ouvir o Piano concerto nº 2 de Bela Bartok que estreou este ano em Frankfurt, outro artista que me disseram já deixou a Alemanha, provavelmente por causa das "normas".



19 de janeiro de 2009

A constituição de 1933

Casa Comum, 30 de Abril de 1933

Cara amiga

Hoje não é dia das mentiras, mas se fosse era apropriado para falarmos da nossa nova Constituição, que o Estado Novo, "fez aprovar", para se legitimizar. Começa a mentira pela forma cautelosa como o governo não quis perder o plebiscito realizado, para aprovar o documento. De forma matreira e bem à sua maneira, Salazar fez aprovar em Fevereiro uma lei em que se estabelece que, por comodidade, no plebiscito, as abstenções contarão como votos positivos.

Foi Salazar a jogar a back se me permite a "foot-bolada", mas não foi preciso, o plebiscito constitucional, deu-lhe uma larga vantagem em 11 de Abril passado 1 213 159 votantes. Contra apenas 5 955. Abstenções 487 364 e 60% de votos favoráveis, não era portanto necessário o artifício.

Contudo, apesar de tudo a constituição promete, sobretudo em matéria do que se pode chamar genericamente, direitos, liberdades e garantias, alguma coisa, que vamos ver se a Ditadura arranja forma de os negar

O Presidente da República é consagrado como o primeiro poder dentro do Estado, detendo o poder executivo, que partilha com o governo; o poder legislativo pertence essencialmente à Assembleia Nacional.

Apesar de tudo na Constituição vigora a subordinação do Presidente do Conselho ao Presidente da República, a questão é pensar que Oscar Carmona não se atreverá nunca a demitir Oliveira Salazar.

O processo eleitoral, demonstrou que existem duas ou três forças, blocos que esgrimem com armas desiguais, a ditadura no poder para durar por certo, os comunistas, anarquistas e outros correntes revolucionárias, "habitando" algumas franjas do débil tecido proletário português e os republicanos, largo grupo com várias tendências, defendendo os velhos princípios da liberdade recolhidos da 1ª Republica.

Vendo-se o caso de Vicente de Freitas, que publicou no O Século uma exposição contra o projecto de Constituição de Salazar. Considerando que dentro do 28 Maio, além da corrente nacionalista há outra francamente republicana, que, sem nenhuma maneira defender o regresso à desordem política criada pela Constituição de 1911, é francamente liberal e democrática. Condena a UN como partido se um dia ela viesse de facto a ser a única organização política permitida em Portugal, os seus aderentes constituiriam uma casta privilegiada que pretenderia confundir-se com o próprio Estado e se julgaria no direito de reclamar todas as benesses e situações ... a primeira Assembleia Nacional a eleger será de facto nomeada na sede da União Nacional e no Ministério do Interior e representará, não a vontade da nação, mas a vontade do Governo ... se o Estado tem realmente de ser forte, o pensamento não pode deixar de ser livre.

Salazar reagiu de imediato e demitiu Vicente de Freitas de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Este é o verdadeiro carácter de Salazar, Vicente de Freitas um republicano conservador e inspirador da União Nacional. Entre vários cargos políticos foi ministro do interior e presidente do ministério de 18 de Abril de 1928 a 8 de Julho de 1929, foi demitido de imediato logo que ousou discordar do chefe supremo, imagine-se o que acontece a quem estiver mais distante politicamente.

Assim (des)andamos nós

Por hoje fico-me a ouvir pela janela o Adagio em sol menor de Albinoni que o nosso vizinho do terceiro esquerdo, felizmente não se cansa de tocar no seu gramofone.

Créditos:prof. Adelino Maltez

15 de janeiro de 2009

A União Nacional deles

Casa Comum, 31 de Dezembro de 1932

Cara amiga

Desta vez não deixo as notas musicais para o fim, já que a novidade musical é de peso, pelo menos para si, Ravel estreou no dia 14 de Janeiro um Piano Concerto em sól, realmente magnífico, na linha bem moderna da sua música.

O Notícias Ilustrado descobriu há dias extraordinárias semelhanças entre uma figura dos painéis de Nuno Gonçalves, pintados no sec XV e o Dr.Salazar, não faltando por certo entre algumas mentes mais "salazareiras", encontrarem ai alguma premonição divina.

Os adeptos do reviralho, os nossos como gosto de dizer, também exageram, nas teses contrárias sugerindo algum retoque premeditado no quadro, o que é manifestamente destemperado já que o restauro da obra foi acabada em 1910, por mestre Luciano Freire, o que é absurdo, pois nessa época o jovem António estava ainda longe de deter qualquer notoriedade.

Eis em pleno funcionamento a recém criada União Nacional, com o seu núcleo duro bem definido pela Comissão Central (Salazar, Bissaya Barreto, Manuel Rodrigues, Lopes Mateus, Armindo Monteiro) e a Junta Consultiva (Passos e Sousa, João Amaral, Pinto Coelho, Caetano, Linhares de Lima, Alberto dos Reis).

A declaração de princípios fê-la o chefe, no discurso de tomada de posse, com a assassinato da democracia em papel passado e nas seguintes palavras "Fora da UN não reconhecemos partidos. Dentro dela não admitimos grupos… nós temos uma doutrina e somos uma força.

António Ferro é o chefe do Secretariado de Propaganda Nacional, o tambor de ressonância de Salazar, que entrevista o ditador cujo o trabaho começa a ser publicadas no Diário de Notícias e posso afirmar, sem receio de errar que estamos em presença do "encenador do regime", Ferro não transcreve o que Salazar diz,"retém as ideias e encena-as", a paisagem de fundo, como vc sabe é de uma Lisboa pobre mas alegre, as pessoas não têm gramofones, (nós somos a excepção e por esse motivo deveríamos ser infelizes ) mas com canário na gaiola".

Bem estamos a acabar mais um ano, em que lhe faço os votos de sempre par si e para o País, mas acabo com uma nota diferente, sobre a minha aposta para o filme que irá vencer o Óscar deste ano, não posso esquecer-me da Greta Garbo e do seu trabalho no Grande Hotel.

11 de janeiro de 2009

A morte de D.Manuel II

Casa Comum, 31 de Julho de 1932

Minha prezada amiga

A sua conhecida simpatia pela causa monárquica, faz-me endereçar-lhe os meus sinceros votos de pesar pela morte no passado dia 2 de D.Manuel II, em Londres onde se encontrava exilado.

A notícia é que D.Manuel, tinha ido no dia anterior a Wimbledon assistir a um jogo de ténis, organizado pelo Old England Club, de que aliás era sócio. Ter-se-á sentido mal à saída, queixando-se da garganta.

No dia seguinte, o médico, proibiu a sua saída de casa, que lhe causou grande pesar, já que no dia seguinte havia o casamento da filha do seu fiel servidor e amigo António Pereira.

O certo é que não melhorou, foi sempre piorando e por certo por muita incúria do seu médico assistente, acabou por falecer com um edema da glote, que acabaria por o sufocar, quando um simples abertura exterior na garganta, ter-lhe-ia por certo salvo a vida.

De um modo geral, a notícia foi recebida com alguma consternação, até porque a figura de D.Manuel de Bragança, não era antipática e mesmo da parte dos mais arreigados republicanos, havia a noção óbvia que ele não era nem nunca foi o responsável pelos erros da monarquia.

Na sua residência em Fulwell Park, velou-se o corpo, do último rei de Portugal, que faleceu com 42 anos nas circunstâncias infelizes, que lhe descrevi.Para o funeral, além de sua mãe, chegaram de Portugal, muitos dos seus amigos

O cortejo fúnebre, teve a presença de todos eles e claro de sua mãe D.Amélia de Orleans e da sua viúva D.Augusta Vitória, dirigindo-se para Weybridge, para o jazigo dos condes de Paris, na cripta da igreja de São Carlos Barromeu, onde ficou sepultado a aguardar o regresso a Portugal.

Só no dia seguinte a urna seria transportada para Westminster, para serem rezadas as solenes exéquias com a presença das principais casas reais europeias.

Soube-se no passado dia 10 que o Salazar, mandou publicar uma nota oficiosa, onde diz que "atendendo ao desejo manifestado pelo sr. D.Manuel, que o seus restos mortais repousasse na Pátria e do patriotismo que sempre deu provas, resolveu-se tomar a iniciativa da sua transladação, fixando-se oportunamente o programa das cerimónias a realizar".

Tanto quanto está anunciado, chegará no próximo dia 2 de Agosto, o cruzador Concord, que a Grã-Bretanha cederá. para transportar os seus restos mortais, que ficarão em câmara ardente na nave central da Estação Sul e Sueste, seguindo depois para o Mosteiro de São Vicente de Fora, onde ficará sepultado junto a seu Pai e irmão.

A nota musical de hoje é o Stabat Mater de Rossini

6 de janeiro de 2009

Salazar chefia OFICIALMENTE o governo

Casa Comum, 06 de Julho de 1932

Cara amiga

Andávamos a adivinhar, infelizmente digo, que o Oliveira beirão, haveria de suceder ao já politicamente falecido há muito tempo, o primeiro-ministro Domingos de Oliveira, o "oliveira seca", há muito subjugado pela preponderância do seu ministro das Finanças, Salazar, sob a tutela dos militares, conduzida pelo presidente Carmona.

É assim que surge o 8º governo da Ditadura implantada em 28 de Maio de 1928, sendo Salazar o primeiro civíl a ocupar o cargo desde essa data. No discurso de posse, declara: os homens são outros, o Governo é o mesmo. Salienta, aliás, que nem todos os processos políticos servem para todos os tempos ou para todos os povos: os homens de governo têm, necessariamente, de actuar segundo o seu modo de ser e segundo as realidades do momento. Mantêm-se apenas Armindo Monteiro (colónias) e Cordeiro Ramos (justiça).mais os novos ministros, Albino Soares Pinto dos Reis , Manuel Rodrigues, Daniel Rodrigues de Sousa, Aníbal de Mesquita Guimarães, César de Sousa Mendes do Amaral Abrantes, Duarte Pacheco, Sebastião Garcia Ramires.

Ou me engano muito ou veio para ficar muito tempo, assim ele saiba manter as boas graças dos militares. A confiança de Carmona em Salazar é notável, já que nas comemorações do 28 de Maio deste ano, o condecorou com a Torre e Espada.

Entretanto os orçamentos com superavit, mesmo com o impacto da crise de 1929, do "mago das finanças" agravam a situação dos trabalhadores. Pão ou trabalho, foi a palavra de ordem levada à rua, em 29 de Fevereiro, na jornada de luta marcada pelo Partido Comunista Português, a Comissão Inter-Sindical e a Federação Nacional das Juventudes Comunistas.

Alegam que a burgesia e o seu Estado, dizem que não tem fundos para sustentar os seus desempregados, mas têm 900 mil contos para renovar o material de guerra, 200 mil contos para barcos de guerra e milhares para alimentar um colossal quadro de oficiais, mas não tem fundos para socorrer os desempregados.

Foi assim que aconteceram greves e manifestações nessa data, na Marinha Grande, Setúbal, Lisboa e Algarve, ferozmente reprimidas pela forças policiais e que levaram à prisão, em Abril passado de 11 militantes do PCP.

Na Alemanha o Hindenburg foi eleito presidente da república na Alemanha, numas eleições em que concorreu o Adolf Hitler, como representante do NSDAP o partido nazi que felizmente ficou bem longe da eleição, mas o chanceler Von Papen, terá como missão trazê-los para o governo, pois apesar de terem perdido votos nas eleições de 1931, ainda são o maior partido do Reichstag.

República e jesuítas é uma coisa que não casa bem. em Janeiro deste ano o governo republicano espanhol expulsa-os, obrigando-os nomeadamente à dissolução das actividades académicas, tendo já começado a chegar cá, pelo menos o nosso ensino, para alguns da elite, vai beneficiar com isso.

Isto vai longo, por hoje despeço-me, mas quero deixar uma mensagem musical magnífica. Para recordar o Concerto para violino em sol menor op. 26 de Max Bruch um compositor e maestro judeu de origem alemã, falecido em 1920.


30 de dezembro de 2008

Ano novo em vida velha

Casa Comum, 2 de Janeiro de 1932

Minha cara amiga

Hoje tenho estado a ouvir o Russ Colombo numa miscelânea de êxitos de 1929, com a particularidade dele tocar violino e cantar, e outros êxitos como o Prisioner of love, ou o fantástico Paradise,

Enfim uma tarde a ouvir a música mais actual que vem lá fora como A Tear, a Kiss, a Smile, cantado pela Bebe Daniels e o Everett Marshall e a Janet Gaynor cantar aquela coisa do George Gershwin Somebody From Somewhere.

Foi assim que entrei o ano, embora preocupado, sobretudo com os sinais cada vez mais fortes, da aproximação entre a nossa ditadura e estado fascita italiano de Mussolini, com a chegada ontem do Italo Balbo, o ministro do Ar do Duce.

Em Outubro do ano passado, o conselho de Ministros, decidiu criar um Conselho Político Nacional, uma estrutura consultiva, composta por representantes dos sectores apoiantes da Ditadura coordenados pelo "chefe supremo" Salazar, mas essa decisão de Outubro, só agora em Dezembro teve a sua constituição oficializada, presidida pelo Carmona e que integra, Salazar, Armindo Monteiro, Manuel Rodrigues, Martinho Nobre de Melo, Mário Figueiredo e José Alberto dos Reis.O objectivo deste orgão consultivo. tem uma tarefa central, a preparação duma nova constituição, claramente é a Ditadura à procura da sua legalização.

É a resposta à tentativa da revolta dos aviadores de 26 Agosto, que durou 9 horas e cerca de 40 mortos. Entre os líderes da revolta o tenente-coronel Utra Machado, o major-aviador Sarmento Beires, Dias Antunes, Helder Ribeiro e Agatão Lança. mas com a participação de vários aviadores.

Como vc sabe o Sarmento de Beires, do partido Republicano, já tem história na oposição, pelo menos desde o golpe de 20 de Julho de 28, estando desde essa altura na clandestinidade e que por aí continuou, já que não foi apanhado, escapando ao destino dos outros, a deportação para Timor

Revolta foi derrotada pelas forças do governador militar de Lisboa, brigadeiro Daniel de Sousa. O planeamento da revolta falhou por completo pois estava planeado ser desencadeada ao mesmo tempo que a da Madeira.

Vamos ver o que vai dar este ano novo.



27 de dezembro de 2008

Manifestações orquestradas e novas polícias

Casa Comum, 30 de Setembro de 1931

Minha cara amiga

Primeiro as más notícias.penso que não sabe do falecimento em Abril de Henrique Oswald, o compositor brasileiro, como vc sabe foi um dos compositores mais importantes deste nosso tempo. Soube que ele tinha morrido em Junho, no Rio de Janeiro com 79 anos. Enfim um brasileiro, que matizou a sua obra, entre os coloridos da sua terra e as influência europeias, através dos seus estudos em Florença.

Prometi eu, começar com as más notícias, como se houvesse boas nesta terra. Pelo menos no que toca a novidades da vida política é sempre mais do mesmo.Agora o Salazar inventa truques de maquilhagem, como a dissolução da odiosa Polícia de Informações do Ministério do Interior, passando-a para a PSP, mas também incorpora a polícia Internacional Portuguesa, no Ministério do Interior. Não se espera nada de diferente, já que a esta polícia, que até agora tinha como missão vigiar fronteiras, irá ter por certo nova funções, já que Salazar tem evidentemente duas obsessões a Maçonaria e o Comunismo.

Em Maio no dia 19 o Lopes Mateus do Interior, mandou fechar e selar o edifício do Grémio Lusitano, a sede nacional da Maçonaria. Um dos últimos acto do Mateus, já que acabou por transitar para a Guerra substituindo o Schiappa de Azevedo

Os ataques à maçonaria e à centrais sindicais, não abrandam, quer à de predominância anarquista (CGT), quer a que os comunistas pretendem organizar a Comissão Inter-Sindical, na clandestinidade por forma a poderem substituir os sindicatos entretanto extintos.

Nada disto porém foi feito ao acaso ou de surpresa, a Ditadura preparou bem esse ataques, primeiro organizando uma manifestação espontânea gigantesca em 17 de Maio, de apoio a Salazar e a Carmona. Comboios especiais transportam para Lisboa, os "partidários da Ditadura", para uma concentração em Belém, perante o Carmona, comício no Teatro S.Carlos e no Coliseu ( a ópera buffa portuguesa no seu melhor) e o inevitável discurso do salvador da Pátria, desta vez com o título sublime "O interesse nacional da política da Ditadura". Parece que o Domingos de Oliveira o palhaço chefe do governo também discursou, mas francamente acho que ninguém lhe ligou.

No 28 de maio, mais um aniversário da "revolução nacional", já vai no 5º e mais uma organização da embrionária União Nacional, com a predominância tónica nos adversários habituais.

As manifestações de desagrado e resistência possível, limitou-se a uma bomba em Lisboa no Alto do elevador de Santa Justa e alguns tumultos na Rua do Carmo.

Quero entregar-lhe em mão o 1º número do jornal Avante, do Partido Comunista Português, que vc, muito embora não sendo bolchevique (tal como eu), não deixará de ler com muita atenção, mas com o máximo cuidado, por causa da polícia.

19 de dezembro de 2008

Dois meses de revolta armada

Casa Comum, 31 de Maio de 1931

Pois é verdade a minha amiga Severa sempre deixa para mim a codêa e come o miolo, que é como quem diz, a sensaboria das politiquices, reservando-se para o fascínio das artes.

Curiosamente parece que a substituição na pasta da guerra de Namorado de Aguiar por Schiappa de Azevedo, por desvarios conspirativos para derrube do Salazar, que "namorando" o Ivens Ferraz, trocavam segredinhos para o fazer saltar.

Consta-se que o homem têm ouvidos nas costas e adivinhou antes do tempo certo, ou talvez que não passasse de boataria, que a intriga também é muita e você, bem sabe como é esta gente da nossa terra.

Pelo sim pelo não, o Salazar não se mete com o general Ferraz, sempre é o Chefe máximo do Estado-Maior e com militares nunca se sabe.

Falando em guerra, estes 2 meses últimos foram em polvorosa, revoltas militares na Madeira, nos Açores e na Guiné, é obra.

Na Madeira começou em 4 de Abril e durou 28 dias, sob o comando da Junta Revolucionária da Madeira, presidida pelo General Sousa Dias, criou um embrião de governo provisório que tomou medidas de alcance económico e social, e que foi um pouco o feitiço contra o feiticeiro, pois teve origem nos deportados pelo regime para a Madeira que, seriam cerca de 200, entre civis e militares, numa altura em se sentia o descontentamento por sucessivas lutas da população da Madeira contra medidas do governo central de que é bem conhecida a "revolta da farinha" e os apertos orçamentais, que sempre aleijam mais o mais fraco.

Sendo assim minha amiga, foi como juntar a mexa ao trapo, mas 28 dias de resistência foi heróico, porém já foram derrotados pelas "forças leais ao governo", como eles dizem.

Nos Açores, o comandante Maia Rebelo, o capitão de mar e guerra João Manuel de Carvalho, o major Armando Pires Falcão e o sidonista Lobo Pimentel, chefiam o levantamento e aderem à revolta as ilhas de S. Miguel, Terceira, Graciosa e S. Jorge.

A 17 de Abril, na Guiné, prendendo o governador e não encontrando resistência, forma-se então uma Junta Revolucionária, naquela província, que formula a mesma luta contra Lisboa.

A desigualdade de forças, determinou o fim de todas estes levantamentos, afinal também reflexo da depressão de 1929, que como sempre nestes casos chega sempre mais tarde às economias mais débeis. A crise monetária europeia no início deste ano, fez-se sentir, nos seus efeitos bancários e cambiais, também em Portugal.

O governo de Oliveira Salazar encetou um conjunto de medidas restritivas, começando pelo orçamento de 1931/32, para o qual se prevê um decréscimo de 7,8% nas despesas, com um superavit de 1900 contos, mas com efeitos devastadores para as classe mais desfavorecidas.

Que importa ao homem das finanças, se o povo passa fome, o que lhe interessa é aferrolhar, poupar os 1900 contos de reis, é o que importa.

Não me esqueci da vitoria Republicana em Espanha, devem vir a dar-me por certo motivos para sorrir, mas foi só há mês e meio, em 14 de Abril, estou a reunir umas informações que depois lhe conto.

Como é habito acabar-se com música deixo-a com o hino da Segunda Republica Espanhola

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13 de dezembro de 2008

Uma passagem pelas coisas belas da vida

Casa Comum, 30 de Abril de 1931

Meu amigo

Já há muito tempo que aqui não deixo ficar nada, mas quando apareço trago novidades. Você sabe que o Leitão de Barros acabou um novo filme, por acaso o primeiro filme sonoro português, a que tive o privilégio de assistir em audição privada para amigos, já que a estreia está prevista lá para o mês de Junho no São Luiz.

A história é passada no século dezanove e narra as aventuras dum jovem cavaleiro, D. João, Conde de Marialva, dividido pelo amor da mítica e insinuante cigana Severa - a quem a lenda consagrou como fadista desditosa - e uma fidalga. Enredo ambientado nas lezírias e nas touradas.

Adaptação da obra homónima da autoria de Júlio Dantas. Entre os vários colaboradores de Leitão de Barros neste filme conta-se o cineasta francês René Clair, na planificação do filme.

Deixo-lhe um cheirinho do filme, um fado cantado pela protagonista Dina Teresa.





Como sempre mais virada para as questões da cultura, deixo-lhe a tarefa de comentar as politiquices nacionais e internacionais, esta que se vivem agora com as nossas revoltas internas sobretudo a da Madeira e Açores.

Falo-lhe da morte de Anna Pavlova, a maior bailarina de sempre. Russa de São Petersburgo e que morreu em Haia, com 50 anos, no dia 23 do passado mês de Janeiro.



Não posso acabar sem lhe recomendar o último do Charlie Chaplin o City Lights, porque sei o quanto vc aprecia o Charlot.

8 de dezembro de 2008

Chega mais um ditador

Casa Comum, 31 de Dezembro de 1930

Getúlio Vargas assume a presidência interina da República do Brasil, na sequência do golpe militar que depôs o presidente Washington Luís do passado dia 24 de Outubro.

É um gaucho, mas descendente de família açoriana, foi ministro das Finanças do presidente deposto, cargo que abandonou para assumir a presidência do Rio Grande do Sul.

Foi nomeado interinamente para a presidência do governo provisório com amplos poderes. A constituição de 1891 foi revogada e Getúlio passou a governar por decretos,

Como sabe cara amiga, isto chama-se governo de ditadura, mais um, nestes tempos conturbados da história das nações onde se degladiam as novas ideias republicanas de liberdade democrática, com a imposição pela força de conceitos normalmente conservadores e reaccionários.

Por cá as prisões aos que não beijam o anel ao regime, continuam a ser o destaque. O regime ditatorial, dia após dia endurece a sua atitude. Um presumível golpe foi o mote para a prisão de vários chefes republicanos como Sá Cardoso, Helder Ribeiro, Augusto Casimiro, Rego Chaves, Ribeiro de Carvalho, Maia Pinto, Correia de Matos, Pinto Garcia e Carlos Vilhena

Já tinham sido detidos em Maio João Soares, Moura Pinto, Tavares de Carvalho, Carneiro Franco, Raul Madeira e Cunha Leal. Tudo por causa de um presumível golpe, marcado para o dia 21 de Julho.

O mês de Julho, talvez pela força do calor, foi muito intenso, minha amiga, para o regime, não foram só as prisões e as deportações, o regime tenta organizar-se optando pela criação de um partido-estado, com uma ideologia denominada de nacionalismo-histórico, uma invenção que remete para o passado histórico e quanto a mim de "retoma monárquica", como não pode deixar de ser atendendo ao passado de 8 séculos de vida monárquica.

Nem ponta de ar fresco ou abertura, ás novas correntes do pensamento político moderno, dando oportunidade a algumas medidas socializantes de opção mais liberal, não, tudo é definido como cultura fechada e passadista. Uma política saloia, ferrugenta e beata.

É isso que anuncia a criação da União Nacional, papagiada pelo general-ministro Oliveira o dos Domingos, que leu o texto constitutivo desse partido enquanto o agora só ministro das Finanças o outro Oliveira, o de todos os dias, lia a teorização política do novo partido, com um discurso chamado Princípios Fundamentais da Revolução Política onde criticou as desordens cada vez mais graves do individualismo, do socialismo e do parlamentarismo.

Ao menos Getúlio Vargas tem para já uma coisa positiva o seu gosto pela música, (do nosso botas nada se sabe) talvez por influência de Heitor Villa Lobos, introduziu a disciplina de canto coral nas escolas de ensino médio em todo o Brasil.

Fica, para a minha amiga mais um vez a homenagem a Heitor Villa Lobos, o Trenzinho do Caipira, que como você sabe é o 4º movimento da Bachianas nº 2 os meus votos dum ano de 1931 um pouco melhor.




3 de dezembro de 2008

Domingos Oliveira o verbo de encher

Casa Comum, 31 de Maio de 1930

O tempo passa célere minha cara amiga Severa e já passaram 4 anos, desde o fim da república, consignado no golpe militar conduzido por Gomes da Costa, a "Revolução Nacional" como lhe chamam, os apaniguados da ditadura e lá foram os militares "generalados" ao beija mão a Salazar, numa sessão realizada na sala do Risco do Arsenal do Alfeite da Marinha, em Lisboa.

O Domingos de Oliveira a fingir de presidente do governo, chamou a atenção, para a necessidade de preparação da "nova ordem constitucional coma organização política civíl, que possa manter e continuar a obra da Ditadura, garantir a normalidade da vida pública concorrer decisivamente pata o fortalecimento e felicidade da Pátria".

A normalidade da vida pública, disse o chefe do governo, que como sabemos se assegura prendendo e deportando as vozes que se levantam em oposição como a de Cunha Leal, que depois duma estadia no Aljube, foi transferido para Ponta Delgada.

Essa é a normalidade da Ditadura, pois como você sabe também estão presos João Soares, Moura Pinto, Tavares de Carvalho, Carneiro Franco e Raúl Madeira.

Aliás pouca importância teve o discurso de Domingos Oliveira, a palavra do ministro das Finanças e das Colónias é que era aguardada, determinando de novo quem era o verdadeiro estratega do regime.

A palavra de ordem central de Salazar, centrou-se no Acto Colonial que foi publicado no passado dia 8. de acordo com a lógica da ideologia imperial de Portugal enquanto potência colonizadora.

Olhe minha querida vamos à música que é o que verdadeiramente nos enriquece e aquece a alma, nada como Beethoven , que me diz ao 3º Piano Concerto op. 37 ?







30 de novembro de 2008

as Imagens valem mais do que mil palavras(I)

As imagens que ilustram os últimos posts publicados

O "Mago Tirano" das Finanças. Ficam as imagens e os factos dessa época, os primeiros tempos do fascimo português.

26 de novembro de 2008

Em Angola gritou-se pela autonomia

Casa Comum, 31 de Março de 1930

Carissima amiga

Como pode alguém ficar indiferente, perante a resistência a luta persistente de Mahatma Gandhi e seus discípulos e o seu protesto contra o domínio inglês na Índia

Como você sabe minha amiga a soberba inglesa espalha por todo o Império , não só essa mesma toleima, como usa a sua bota militar, para calcar, mesmo nas coisas mais insignificantes, todos os seus súbditos, que como sabemos, insiste em considerar como meros escravos. A razão da luta do pacifista Gandhi ganha por isso contornos de grande dignidade


Repare, que os indianos (e não só), são obrigados a comprar todos os produtos industrializados da Inglaterra, sendo proibidos inclusivamente de extrair o sal no seu próprio país, que acaba por se tornar o símbolo do colonialismo para todos os indianos.

Essa marcha começou, no dia 12 de Março como você sabe e eles vão de terra em terra, percorrendo os caminhos do País que deveria ser o deles, parando para descansar, e ganhando cada vez mais aderentes para a causa da liberdade. Quanto tempo mais aguentarão, pergunto eu ?

Então que me diz aquela história do Filomeno da Câmara em Angola ?

O Salazar depois de ter despedido o comissário Vicente Ferreira por telegrama, nomeia o militar Filomeno da Câmara, homem de confiança dos golpistas de 26 e como sempre nestes casos, não interessa sequer saber se o homem é competente. Engraxador era com certeza pois não sei se lhe chegaram a contar alguns dos decretos redigidos pela sua própria mão e publicados no Boletim Oficial de Angola, são no mínimo ridículos (por exemplo, trata o Presidente da República por "grande homem casto" .

Chega a Angola acompanhado pelo Morais Sarmento compicha de 26 e ao que parece muito pouco de fiar, e no mínimo fanático e completamente engajado as soluções fascistas tipo fusilar todos os "antipatriotas" com pretensões à independência de Angola, "liquidar os maçónicos" e dar cabo de todos os republicanos partidários da democracia "corrompida". (quem lhe terá encomendado o sermão ?).

Veja-se bem o que foi este homem como Director-Geral da Administração Pública, que incluía, quando julgava necessário, agressão física de funcionários, inclusivamente de altos funcionários.

O comissário Filomeno a páginas tantas retira-se para o sul de Angola com toda a sua família e em vez de cumprir o regulamentado, deixar a responsabilidade do governo ao seu substituto legal, o chefe de Estado Maior das Forças Armadas, como a lei determinava, confiou esse cargo ao obscuro tenente Morais Sarmento. Mais ainda: deixou-lhe folhas em branco já assinadas para que este pudesse publicar todos os decretos que entendesse.

O jovem Sarmento ao que parece terá começado a preparar um "golpe de Estado".Segundo alguns depoimentos, o seu projecto seria de prender o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o Coronel Genipro Almeida, e deportar centenas de opositores ao novo regime fascista português, nomeadamente no sector da maçonaria.

O chefe do Estado Maior foi mais célere e, durante a noite de 29 de Março do ano passado, cercou as forças do tenente Morais Sarmento e depois dum tiroteio , o exaltado tenente, acabou morto,

Abriram-se as hostilidades entre forças do Alto Comissário, que clamava por traição e as do Coronel Genipro, ambos reclamavam junto de Salazar também Ministro das Colónias a sua lealdade a Portugal.

Ouviram-se em Luanda pela primeira vez os gritos, pela liberdade e pela independência.

Por esta razão e por certo porque, a própria nomeação de Filomeno e de Morais Sarmento, tinham como principal tarefa, o apagar de alguns focos republicanos, maçónicos e liberais, que por Angola ainda existiam e que se conglomeraram em torno das forças do Coronel Genipro, o certo é que Salazar toma partido publicamente pelo Alto Comissário, mas no passado dia 16 de Março, deu -lhe ordem para vir à Metrópole para receber instruções, que na prática significa a sua substituição.

Todos sabemos e ele também, que os combatentes pela liberdade, ficaram em Angola, que fará ele a seguir ?

(Baseado no estudo
ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30
por
Adelino Torres
ISEG-Universidade Técnica de Lisboa)

19 de novembro de 2008

O duplo ministro

Casa Comum, 31 de Janeiro de 1930

Há muito tempo que não lhe escrevo e muito embora nas questões políticas seja o meu amigo o mais erudito e eu mais para as artes, também não fico indiferente aos aspectos políticos.
Destaco a morte do Primo de Rivera, em Paris, no passado dia 16 de Março. Afinal o ditador espanhol, grande "farol inspirador" dos nossos governantes actuais e dos mentores do golpe original do 28 de Maio.

Contudo caiu em desgraça junto do rei e abandonado pelos altos comandos militares e pelo rei, apresentou a sua demissão e exilou-se em Paris, não sem antes recomendar a Afonso XIII alguns nomes de militares que poderiam suceder-lhe à frente do governo, entre eles o do general Dámaso Berenguer, o senhor que se segue.

Por cá continua a saga dos militares, meu caro amigo, aí está o general Domingos de Oliveira, um "velho talassa", ligado ao movimento da espadas, que levou o Pimenta de Castro ao poder em 1915. Enfim os governos e os ministros vão e vêm, mas o Finanças de Santa Comba, permanece, cada vez mais poderoso, embora com novas companhias, que duvido não seja ele a escolher.

Aliás os poderes do ministro Salazar, ficam mais que reforçados, já que ocupa a pasta das Colónias em acumulação. Curiosamente na sequência um conflito, em que o próprio Salazar, era interveniente, por causa da concessão dum crédito a Angola, que opunha as Finanças ao governador do Banco de Angola, Cunha Leal e que tinha estado na origem da queda do governo anterior.

Naturalmente que após a tomada de posse do novo governo, Salazar duplamente ministro, começa por demitir Cunha Leal, "deixando" que o Conselho de Administração, daquele banco, nomeie Mendes Cabeçadas para o substituir.

Hoje fica uma sugestão de zarzuela, já que falámos de Espanha, por razões bem menos felizes, fica um apontamento da La picola molinera, de Pablo Luna, estreada em 1928

Temas e Instituições